quarta-feira, 14 de novembro de 2012


Elio Gaspari e Golbery,
o bruxinho que era bom

Félix Maier

"Pentateuco de Elio Parmegiani Gaspari", é como o general-de-divisão Raymundo Negrão Torres se referia às principais obras de Gaspari, como A Ditadura Envergonhada, cheias de meias verdades e mentiras inteiras, tendo como base, entre outras fontes, Brasil: Nunca Mais, organizado pelo cardeal vermelho, Dom Paulo Evaristo Arns, e Dos filhos deste solo, dos farsantes Nilmário Miranda e Carlos Tibúrcio.

“Foi com essas maciças declarações [sobre torturas] que o trêfego Cardeal Arns e seus acólitos - entre eles, José Gregori e José Carlos Dias - conseguiram montar o famoso livro ‘Brasil: Nunca Mais’, a Bíblia dos Revanchistas” (Gen Div Negrão Torres - História Oral do Exército/1964, Tomo 14, pg. 68). (1) Não custa lembrar que o revanchista José Carlos Dias é hoje um dos integrantes do Comando Vermelho de Dilma Rousseff, que atende pelo apelido de Comissão Nacional da Verdade, o Pravda tupiniquim.

“Élio Gaspari embebeu-se do que chama de a ‘sabedoria das ruas’. Precisando de uma ocupação e por sua militância no Partido Comunista tinha o codinome não muito inteligente de Élio Parmegiani, acabou sendo empurrado para o jornalismo em Novos Rumos, órgão do PCB, onde chegou depois de modesto emprego na Embaixada cubana. (...) Mas terá sido, certamente, a ligação íntima com o ‘Turco’ [Ibrahim Sued, de quem foi auxiliar na coluna social de O Globo] que terá dado a Élio Gaspari a ferramenta com que aprendeu a abrir o ‘cofre das vaidades’ de certas figuras da ‘ditadura’ - como Ernesto Geisel, Golbery do Couto e Silva e Heitor de Aquino Ferreira - de onde saíram os papéis de arquivos oficiais - transformados leviana e criminosamente em arquivos pessoais - e os ‘diários’ e as fitas secretamente gravadas, com que montou sua mais recente e longeva obra. (...) Em resumo, trata-se de uma obra escrita para ganhar dinheiro através de processos torpes, tentando denegrir e enxovalhar as Forças Armadas, especialmente o Exército e seus chefes” (idem, pg. 51).

“De Golbery, [Gaspari] recebeu em 1985, para o que cinicamente chama de ‘custódia temporária’, cerca de cinco mil documentos de um pretenso ‘arquivo morto’, mas onde, na realidade, havia de tudo, inclusive muitos documentos oficiais, confidenciais, de que o ‘bruxo’ e seu cúmplice Heitor Aquino tinham a guarda em função dos cargos e dos quais se apossaram, cometendo crime de prevaricação. Nas vinte e cinco caixas que foram entregues, havia milhares de documentos, cartas, bilhetes e até rabiscos; essas caixas ficavam embaixo da mesa de Heitor Aquino Ferreira (secretário de Golbery de 1964 a 1967, de Geisel de 1971 a 1979 e de Figueiredo até sua morte, em 1987). Manteve com Geisel ‘dezenas de demoradas e profícuas conversas’, a partir de 1979, num canto do restaurante Rio’s, no Aterro do Flamengo, passando os encontros a se fazerem no apartamento do ex-presidente, a partir de 1994, quando teve oportunidade de gravar 12 fitas K-7 de vinte sessões de entrevistas, de 90 minutos cada. A esse tempo, Geisel vinha sendo entrevistado também pela equipe do CPDoc da FGV que publicou suas memórias autorizadas” (idem, pg. 52-3).

“A obra mercenária de Élio Gaspari vem a lume no justo momento em que a democracia americana - atingida em seu próprio solo pelo terrorismo islâmico - adota medidas de salvaguarda que deixam o nosso AI-5 como um mero regulamento de um colégio de freiras e onde os ‘porões’ da ditadura brasileira - que tanto incomodaram certos círculos da terra de Tio Sam e muitos ditos brazilianistas ficam a parecer um ‘jardim de infância’ se comparados com os de Guantánamo” (idem, pg. 66).

Carlos Heitor Cony comparou a obra de Gaspari com a do historiador romano Caio Suetônio Tranquilus, guardião dos arquivos do imperador Adriano, dos quais se valeu para escrever Os Doze Césares.

O Grupo de Levantamento da Conjuntura (GLC) era comandado por Golbery a partir da seção fluminense do IPES (2), no edifício Avenida Central, no Rio de Janeiro (13 salas no 27º. andar). “O GLC funcionava na verdade como um serviço secreto. A missão mais importante do núcleo era alimentar um gigantesco arquivo de informações sobre alvos do Ipes e ‘sangrar’ linhas telefônicas para ouvir segredos de seus adversários. O arquivo do GLC não começou do zero. Antes de deixar o Sfici, Golbery saqueara o banco de dados do órgão, levando boa parte de suas fichas para o Ipes” (FIGUEIREDO, 2005: 108).

Golbery do Couto e Silva, o Rasputin do governo dos militares, era chamado de "o mago", "o feiticeiro", "o bruxo" e "o satânico Dr. Go", uma analogia ao filme de 007 "O satânico Dr. No". “Antes da Revolução, meu irmão fez, aqui no III Exército, um Manual de Guerra Psicológica, no qual mostrava isso tudo. (...) Acontece que o nosso Golbery do Couto e Silva, uma das eminências do Governo, não era favorável ao combate sistemático e radical da subversão. Ele dizia que os subversivos tinham que ter alguma coisa para fazer, para se expandir e assim permitiu que eles se infiltrassem. Então, com o consentimento dos governos militares, a esquerda apossou-se de todos os pontos-chave da mídia e dos estabelecimentos de ensino, inclusive das cadeiras de Organização Social e Política do Brasil (OSPB) e de Moral e Cívica, que tinham sido criados justamente para difundir os nossos ideais” (Gen Ex Ruy de Paula Couto - HOE/1964, 1964, Tomo 13, pg 45).

Golbery, de fato, foi um "bruxo". Porém, lembrando uma famosa peça teatral de Maria Clara Machado, Golbery foi um "bruxinho que era bom" para a companheirada esquerdista. O "Satânico Dr. Go" ajudou a construir a Contrarrevolução de 1964, a partir de seu importante trabalho no IPES e na CAMDE (3). Inexplicavelmente, ajudou a desconstruir a mesma Contrarrevolução, na medida em que entregou de bandeja arquivos fundamentais, surrupiados dos órgãos em que serviu, a um ferrenho opositor da Contrarrevolução, que é Elio "Parmegiani" Gaspari, o "lambe-graxa" do "bruxo" e de altas figuras da República, os quais conseguiu seduzir ao abrir o “cofre das vaidades” fardadas.

Desgostoso com o embuste que foi o inquérito do Caso Riocentro, que tentou colocar a culpa em militantes da esquerda, o general Golbery do Couto e Silva, devido às resistências dentro do próprio SNI para punir os responsáveis pelo episódio, afirmou que havia criado um “monstro” - o SNI - e entregou o cargo de chefe do Gabinete Civil do governo Figueiredo.

O “bruxo que era bom” saiu de cena, retirando-se para as brumas do esquecimento. Gaspari, no entanto, conseguiu projeção nacional, principalmente com os livros escritos sobre a ditadura que, segundo ele, passou de envergonhada para encurralada, o que é uma mentira, porque o timing da redemocratização foi estabelecido pelos militares, não pelos políticos, inicialmente com Geisel e sua “abertura lenta e gradual”, terminando com Figueiredo e sua Lei da Anistia.

Hoje, “Parmegiani” se diverte em escrever alguns textos lúcidos, como a sanha petralha em querer domesticar a internet, e outros em que prevalece a pura molecagem, como é o caso do seu comentário sobre o ORVIL. O mais grave, porém, é que seus best sellers são verdadeiras centrais da desinformação, como nos alertam o general Negrão Torres em Pentateuco de Elio Parmegiani Gaspari e o historiador Carlos I. S. Azambuja em A parcialidade escancarada.

Notas

(1) MOTTA, Aricildes de Moraes (Coordenador Geral). História Oral do Exército - 1964 - 31 de Março - O Movimento Revolucionário e sua História. Tomos 1 a 15. Bibliex, Rio, 2003.

(2) IPES - Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais: fundado em 1961 no Rio de Janeiro pelo coronel Golbery do Couto e Silva e um grupo de empresários anticomunistas, dispostos a readequar e a reformular o Estado brasileiro. Tinha por objetivo criar barreiras intelectuais contra a propagação das ideias marxistas durante o governo João Goulart. Promovia Estudos de Problemas Brasileiros para os governos militares pós-1964. O IPES, o IBAD, a CAMDE e as Forças Armadas formaram a base quadrangular decisiva para o desencadeamento da Contrarrevolução de 31 de março de 1964, contra Jango e sua política de implantar a “República Sindicalista” no Brasil. O IPES passou a existir oficialmente no dia 29/11/1961 (Jânio Quadros havia renunciado em agosto do mesmo ano). O lançamento do IPES foi recebido favoravelmente por diversos órgãos da imprensa, como o Jornal do Brasil, O Globo, O Correio da Manhã e Última Hora. Contou com a aprovação do Arcebispo do Rio de Janeiro, Dom Jayme de Barros Câmara. Além do Rio e de São Paulo, o IPES rapidamente se expandiu até Porto Alegre, Santos, Belo Horizonte, Curitiba, Manaus e outros centos menores. O IPES foi formado pelo trabalho do empresário de origem americana, Gilbert Huber Jr., do empresário multinacional Antônio Gallotti, dos empresários Glycon de Paiva, José Garrido Torres, Augusto Trajano Azevedo Antunes, além de serviços especiais de oficiais da reserva, como o general Golbery do Couto e Silva. Sandra Cavalcanti era uma das mais famosas conferencistas do IPES. As sementes do IPES (assim como do IBAD e do CONCLAP) foram lançadas no final do governo JK, cujos excessos inflacionários geraram descontentamento entre os membros das classes produtoras do país, e durante a Presidência de Jânio Quadros, em cujo zelo moralista eles depositaram grandes esperanças. O IPES produziu em torno de oito filmes, para alertar os desmandos do Governo Goulart, como a ameaça comunista; os cineastas eram Jean Mazon e Carlos Niemeyer. Escritores de peso do IPES foram Nélida Piñon, Rachel de Queiroz e José Rubem Fonseca, autor de Feliz Ano Novo; segundo Fonseca, o “IPES buscava mobilizar a opinião pública no sentido do fortalecimento dos valores democráticos” (Gen Del Nero Augusto, in A Grande Mentira). “Somente nas ações contra o regime, despendeu o equivalente a 100 milhões de dólares, fortuna bancada com doações de centenas de grandes e megaempresários brasileiros e estrangeiros. O número de corporações americanas que apoiaram financeiramente a entidade chegou a 297” (FIGUEIREDO, 2005: 107-8) (4). Futuros ministros dos governos militares também foram membros do IPES: Antonio Delfim Netto, Roberto Campos, Mário Henrique Simonsen, Otávio Gouveia de Bulhões, Hélio Beltrão. O IPES teve o apoio também de Paulo Malta (Diário de Pernambuco), Pedro Dantas (pseudônimo de Prudente de Morais Neto), embaixador José Sette Câmara, embaixador e poeta Augusto Frederico Schmidt. Com apoio do IPES foi lançado o livro UNE - instrumento de subversão, em que “a estudante Sônia Seganfredo expunha a infiltração comunista no meio universitário” (ORVIL, pg. 158) (5). O IPES participou também de operações internacionais, que ajudaram a derrubada de Salvador Allende, no Chile, e do general Juan Torres, na Bolívia (em agosto de 1971, o general Hugo Banzer tomou o poder). Entidades congêneres do “Complexo IPES/IBAD”: 1) México: Centro de Estudios Monetarios Latinoamericanos - CEMLA; Centro Nacional de Estudios Sociales - CNES; Instituto de Investigaciones Sociales y Económicas - IISE; 2) Guatemala: Centro de Estudios Económico-Sociales - CEES; 3) Colômbia: Centro de Estudios y Acción Social - CEAS; 4) Equador: Centro de Estudios y Reformas Económico-Sociales - CERES; 5) Chile: Instituto Privado de Investigaciones Económico-Sociales - IPIES; 6) Brasil: Sociedade de Estudos Interamericanos - SEI; Fundação Aliança para o Progresso; 7) Argentina: Foro de la Libre Empresa; Acción Coordinadora de las Instituciones Empresariales Libres. “Em 64, quando Castelo Branco organizou o Governo, a maioria dos cargos foi entregue a quem tinha ensinado ou feito cursinho no IPES. A começar por Golbery e Roberto Campos” (Sebastião Nery, in “Os filhos de 64”, Jornal Popular, Belém, PA, 6/10/1995).

(3) CAMDE - Campanha da Mulher pela Democracia: criada pouco antes das eleições de 1962, sob orientação de Leovigildo Balestieri (vigário franciscano de Ipanema, Rio de Janeiro), Glycon de Paiva e o general Golbery do Couto e Silva. “Eles convincentemente argumentavam que o Exército fora minado pelo ‘vício do legalismo’, que só mudaria se ‘legitimado’ por alguma força civil, e que as mulheres da classe média e alta representavam o mais facilmente mobilizado e interessado grupo de civis” (P. Schmitter, in Interest, Conflict and Political Change in Brazil, Stanford, California University Press, 1971, pg. 447). A CAMDE era uma organização feminina anticomunista, promoveu a “Marcha da Família com Deus pela Liberdade”, no dia 19/3/1964, em São Paulo (19 de março, Dia de São José, Padroeiro da Família), reunindo 500.000 pessoas, protesto que exigia o fim da balbúrdia e da carestia durante o Governo Goulart, e que antecedeu à revolução de 31/3/1964. No dia 2 de abril, a CAMDE reuniu 1 milhão de manifestantes no Rio de Janeiro para agradecer a interferência dos militares nos destinos do país, ocasião em que Aurélia Molina Bastos encerrou seu discurso dizendo: “Nós louvamos, nós bendizemos, nós glorificamos a Deus e o soldado do Brasil”. As mulheres do CAMDE de Minas Gerais ofereceram a Castello Branco, ainda antes de sua eleição, uma nova faixa presidencial, para que não usasse a tradicional, “já conspurcada pelos maus presidentes que o precederam” (O Estado de S. Paulo, 12/4/1964). Outras organizações femininas e grupos católicos atuantes em 1964, além da CAMDE: Liga de Mulheres Democráticas (LIMDE), (MG); União Cívica Feminina (UCF), organizada em 1962 (SP); Campanha para Educação Cívica (CEC); Movimento de Arregimentação Feminina (MAF), teve início em 1954, foi liderado por Antonieta Pellegrini, irmã de Júlio de Mesquita Filho, proprietário de “O Estado de S. Paulo”; Liga Independente para a Liberdade, dirigida por Maria Pacheco Chaves; Movimento Familiar Cristão (MFC); Confederação das Famílias Cristãs (CFC); Liga Cristã contra o Comunismo; Cruzada do Rosário em Família (CRF); Legião de Defesa Social; Cruzada Democrática Feminina do Recife (CDFR); Ação Democrática Feminina (ADF), Porto Alegre, RS.

(4) FIGUEIREDO, Lucas. Ministério do Silêncio - A história do serviço secreto brasileiro de Washington Luís a Lula - 1927-2005. Editora Record, Rio de Janeiro e São Paulo, 2005.

(5) AUGUSTO, Agnaldo Del Nero; MACIEL, Licio; NASCIMENTO, José Conegundes do (Organizadores). ORVIL - Tentativas de Tomada do Poder, Schoba Editora, São Paulo, 2012.