segunda-feira, 26 de novembro de 2012


Black is beautiful! White is wonderful!

Félix Maier

O ministro do Supremo Tribunal Federal, Joaquim Barbosa, assumiu no dia 22/11 a presidência da mais alta corte brasileira. A notícia, propalada em toda a mídia, fez questão de repetir que se trata do primeiro negro a assumir o posto. Puro engano. Segundo o site da Fundação Cultural Palmares, Barbosa é o terceiro negro a presidir o STF - cfr. em http://www.palmares.gov.br/2012/02/joaquim-barbosa-sera-o-terceiro-negro-da-historia-do-stf/. Só faltou o site informar quem foram os dois primeiros.

Para marcar posição naquela semana que teve o Dia da Consciência Negra (dia 20/11) e dia 23/11, o Black Friday, não só nos EUA mas também na Terra dos Papagaios (embora, aqui, não passe de “Black Fraude”...), o cerimonial do STF emitiu 2.000 convites, sendo que muitos deles para personalidades negras, como Lázaro Ramos, ou que se apresentam como negras, ainda que não o sejam de fato. Festa na senzala?

A presidente da República Dilma Rousseff também compareceu ao evento. Chamou a atenção sua expressão carrancuda durante toda a cerimônia. O que estaria pensando a presidente? Em indulto de Natal aos mensaleiros petralhas, principalmente ao "camarada d'armas", José Dirceu?

No Brasil de Barbosa, assim como nos EUA de Obama, fala-se mais na cor da pele destas personalidades do que nas personagens em si. Nos EUA, todos os pecados de Obama são perdoados simplesmente por ser negro, como o seu incontido belicismo, que é ainda maior do que o de Bush Filho. O Nobel da Paz - que ironia! - não cumpriu a promessa de desativar Guantánamo, mandou metralhar Osama bin Laden no Paquistão e ordenou a matança de milhares de islâmicos lançando mísseis a partir de Veículos Aéreos Não-Tripulados. Enquanto Bush ordenava ataques “cirúrgicos” contra os chefões da Al-Qaeda, Obama ordena ataques contra extremistas islâmicos em geral, principalmente no Paquistão, no Iêmen e na Somália. Desde 2004, em suas “guerras de drones”, os EUA já mataram cerca de 2.400 pessoas, incluindo civis inocentes, como mulheres e crianças.

Na Terra dos Papagaios, Joaquim Barbosa é louvado por muitos, mas odiado por toda a petralhada, devido à sua ação firme para condenar os mensaleiros petistas e aliados. As louvações à sua pele são ainda maiores do que a sua postura frente à Ação Penal antipetralhas que conduziu no STF, como relator. Por outro lado, imagino os impropérios que são ditos pela petralhada contra o nosso "Batman", incluindo palavrões e frases infamantes relacionadas à cor de sua pele. Uma prova desse racismo pode ser visto na fala odiosa do petralheiro condenado pelo STF, João Paulo Cunha - cfr. em O PT rasga a fantasia: Negro filho da mãe! Negro traidor! E os integrantes dos movimentos negros, o que têm a dizer sobre esse crime racista?


O problema no Brasil, hoje, é saber quem realmente é negro. Segundo o IBGE, todos os negros-negros e os pardos são considerados negros e somam mais de 50% da população brasileira. Seriam em torno de 97 milhões de habitantes. Obviamente, esse dado estatístico não tem nenhuma credibilidade por contrariar um dado científico: a miscigenação brasileira foi feita entre brancos e negros e não entre negros e negros. Na verdade, de acordo com o Censo 2010, a população negra é de 15 milhões de pessoas, os pardos somam 82 milhões e os brancos, 91 milhões.

Essa malandragem do IBGE traz em si mesma uma concepção de racismo às avessas, o racismo negro, por querer impor o sangue negro como sendo preponderante na mistura das "raças", eliminando sumariamente o sangue branco. No fundo, o que essa gente quer dizer é que o sangue negro é mais nobre que o branco. E na Nigéria, o mestiço ou pardo seria considerado branco?

É muito estranho que grupos de "defesa de afrodescendentes" queiram chamar de negra, p. ex., uma morena como Thaís Araújo ou Camila Pitanga. Elas têm, digamos, uns 50% de sangue branco e outros 50% de sangue negro. São, naturalmente, "morenas", não "negras", como muitos (racistas de cor?) querem impor. Chamá-las de "negras" equivale a chamá-las também de "brancas", o que efetivamente elas também não são. Nesse mesmo erro incorreu Paula Barreto, branca, filha do produtor de cinema Luís Carlos Barreto, que se casou com um negro, o jogador de futebol Cláudio Adão, e que não aceita a denominação do termo "pardo": “Tenho horror a ele. É feio, preconceituoso. Meus filhos são negros e são felizes". Pelo visto, virou mesmo moda de muito "moreno-claro" se apresentar como "negro ébano", só para acompanhar a onda politicamente correta em voga e entrar numa faculdade pela janela, usando a escada das cotas racistas.

O racismo às avessas teve grande impulso com FHC (o que “tinha um pé na cozinha”), que na deliberação do Programa Nacional dos Direitos Humanos, criado em 1996, deu início à divisão do Brasil em um país bicolor: "Determinar ao IBGE a adoção do critério de se considerar os mulatos, os pardos e os pretos como integrantes do contingente de população negra". Assim, os mestiços, ainda que tenham 50% de sangue europeu, passam a ser tratados como africanos puros, um absurdo! Com uma penada, FHC pretendeu acabar com uma instituição nacional, a "mulata".

Em futuro ainda distante, o Brasil será composto por uma maioria de mestiços. Tanto brancos e negros serão minorias nesse universo, fato que os integrantes dos movimentos negros não aceitam. Frases como "black is beautiful!" e "white is wonderful!", no futuro, não significarão mais nada, pois todos seremos morenos.

Brown is beautiful!

 

Leia, ainda, de minha autoria:

Racismo cordial: qual é a sua cor predileta?


Raça e Inteligência



 

Leia de Guilherme Fiuza:

Obama, o Robin Hood canastrão

quarta-feira, 14 de novembro de 2012


Elio Gaspari e Golbery,
o bruxinho que era bom

Félix Maier

"Pentateuco de Elio Parmegiani Gaspari", é como o general-de-divisão Raymundo Negrão Torres se referia às principais obras de Gaspari, como A Ditadura Envergonhada, cheias de meias verdades e mentiras inteiras, tendo como base, entre outras fontes, Brasil: Nunca Mais, organizado pelo cardeal vermelho, Dom Paulo Evaristo Arns, e Dos filhos deste solo, dos farsantes Nilmário Miranda e Carlos Tibúrcio.

“Foi com essas maciças declarações [sobre torturas] que o trêfego Cardeal Arns e seus acólitos - entre eles, José Gregori e José Carlos Dias - conseguiram montar o famoso livro ‘Brasil: Nunca Mais’, a Bíblia dos Revanchistas” (Gen Div Negrão Torres - História Oral do Exército/1964, Tomo 14, pg. 68). (1) Não custa lembrar que o revanchista José Carlos Dias é hoje um dos integrantes do Comando Vermelho de Dilma Rousseff, que atende pelo apelido de Comissão Nacional da Verdade, o Pravda tupiniquim.

“Élio Gaspari embebeu-se do que chama de a ‘sabedoria das ruas’. Precisando de uma ocupação e por sua militância no Partido Comunista tinha o codinome não muito inteligente de Élio Parmegiani, acabou sendo empurrado para o jornalismo em Novos Rumos, órgão do PCB, onde chegou depois de modesto emprego na Embaixada cubana. (...) Mas terá sido, certamente, a ligação íntima com o ‘Turco’ [Ibrahim Sued, de quem foi auxiliar na coluna social de O Globo] que terá dado a Élio Gaspari a ferramenta com que aprendeu a abrir o ‘cofre das vaidades’ de certas figuras da ‘ditadura’ - como Ernesto Geisel, Golbery do Couto e Silva e Heitor de Aquino Ferreira - de onde saíram os papéis de arquivos oficiais - transformados leviana e criminosamente em arquivos pessoais - e os ‘diários’ e as fitas secretamente gravadas, com que montou sua mais recente e longeva obra. (...) Em resumo, trata-se de uma obra escrita para ganhar dinheiro através de processos torpes, tentando denegrir e enxovalhar as Forças Armadas, especialmente o Exército e seus chefes” (idem, pg. 51).

“De Golbery, [Gaspari] recebeu em 1985, para o que cinicamente chama de ‘custódia temporária’, cerca de cinco mil documentos de um pretenso ‘arquivo morto’, mas onde, na realidade, havia de tudo, inclusive muitos documentos oficiais, confidenciais, de que o ‘bruxo’ e seu cúmplice Heitor Aquino tinham a guarda em função dos cargos e dos quais se apossaram, cometendo crime de prevaricação. Nas vinte e cinco caixas que foram entregues, havia milhares de documentos, cartas, bilhetes e até rabiscos; essas caixas ficavam embaixo da mesa de Heitor Aquino Ferreira (secretário de Golbery de 1964 a 1967, de Geisel de 1971 a 1979 e de Figueiredo até sua morte, em 1987). Manteve com Geisel ‘dezenas de demoradas e profícuas conversas’, a partir de 1979, num canto do restaurante Rio’s, no Aterro do Flamengo, passando os encontros a se fazerem no apartamento do ex-presidente, a partir de 1994, quando teve oportunidade de gravar 12 fitas K-7 de vinte sessões de entrevistas, de 90 minutos cada. A esse tempo, Geisel vinha sendo entrevistado também pela equipe do CPDoc da FGV que publicou suas memórias autorizadas” (idem, pg. 52-3).

“A obra mercenária de Élio Gaspari vem a lume no justo momento em que a democracia americana - atingida em seu próprio solo pelo terrorismo islâmico - adota medidas de salvaguarda que deixam o nosso AI-5 como um mero regulamento de um colégio de freiras e onde os ‘porões’ da ditadura brasileira - que tanto incomodaram certos círculos da terra de Tio Sam e muitos ditos brazilianistas ficam a parecer um ‘jardim de infância’ se comparados com os de Guantánamo” (idem, pg. 66).

Carlos Heitor Cony comparou a obra de Gaspari com a do historiador romano Caio Suetônio Tranquilus, guardião dos arquivos do imperador Adriano, dos quais se valeu para escrever Os Doze Césares.

O Grupo de Levantamento da Conjuntura (GLC) era comandado por Golbery a partir da seção fluminense do IPES (2), no edifício Avenida Central, no Rio de Janeiro (13 salas no 27º. andar). “O GLC funcionava na verdade como um serviço secreto. A missão mais importante do núcleo era alimentar um gigantesco arquivo de informações sobre alvos do Ipes e ‘sangrar’ linhas telefônicas para ouvir segredos de seus adversários. O arquivo do GLC não começou do zero. Antes de deixar o Sfici, Golbery saqueara o banco de dados do órgão, levando boa parte de suas fichas para o Ipes” (FIGUEIREDO, 2005: 108).

Golbery do Couto e Silva, o Rasputin do governo dos militares, era chamado de "o mago", "o feiticeiro", "o bruxo" e "o satânico Dr. Go", uma analogia ao filme de 007 "O satânico Dr. No". “Antes da Revolução, meu irmão fez, aqui no III Exército, um Manual de Guerra Psicológica, no qual mostrava isso tudo. (...) Acontece que o nosso Golbery do Couto e Silva, uma das eminências do Governo, não era favorável ao combate sistemático e radical da subversão. Ele dizia que os subversivos tinham que ter alguma coisa para fazer, para se expandir e assim permitiu que eles se infiltrassem. Então, com o consentimento dos governos militares, a esquerda apossou-se de todos os pontos-chave da mídia e dos estabelecimentos de ensino, inclusive das cadeiras de Organização Social e Política do Brasil (OSPB) e de Moral e Cívica, que tinham sido criados justamente para difundir os nossos ideais” (Gen Ex Ruy de Paula Couto - HOE/1964, 1964, Tomo 13, pg 45).

Golbery, de fato, foi um "bruxo". Porém, lembrando uma famosa peça teatral de Maria Clara Machado, Golbery foi um "bruxinho que era bom" para a companheirada esquerdista. O "Satânico Dr. Go" ajudou a construir a Contrarrevolução de 1964, a partir de seu importante trabalho no IPES e na CAMDE (3). Inexplicavelmente, ajudou a desconstruir a mesma Contrarrevolução, na medida em que entregou de bandeja arquivos fundamentais, surrupiados dos órgãos em que serviu, a um ferrenho opositor da Contrarrevolução, que é Elio "Parmegiani" Gaspari, o "lambe-graxa" do "bruxo" e de altas figuras da República, os quais conseguiu seduzir ao abrir o “cofre das vaidades” fardadas.

Desgostoso com o embuste que foi o inquérito do Caso Riocentro, que tentou colocar a culpa em militantes da esquerda, o general Golbery do Couto e Silva, devido às resistências dentro do próprio SNI para punir os responsáveis pelo episódio, afirmou que havia criado um “monstro” - o SNI - e entregou o cargo de chefe do Gabinete Civil do governo Figueiredo.

O “bruxo que era bom” saiu de cena, retirando-se para as brumas do esquecimento. Gaspari, no entanto, conseguiu projeção nacional, principalmente com os livros escritos sobre a ditadura que, segundo ele, passou de envergonhada para encurralada, o que é uma mentira, porque o timing da redemocratização foi estabelecido pelos militares, não pelos políticos, inicialmente com Geisel e sua “abertura lenta e gradual”, terminando com Figueiredo e sua Lei da Anistia.

Hoje, “Parmegiani” se diverte em escrever alguns textos lúcidos, como a sanha petralha em querer domesticar a internet, e outros em que prevalece a pura molecagem, como é o caso do seu comentário sobre o ORVIL. O mais grave, porém, é que seus best sellers são verdadeiras centrais da desinformação, como nos alertam o general Negrão Torres em Pentateuco de Elio Parmegiani Gaspari e o historiador Carlos I. S. Azambuja em A parcialidade escancarada.

Notas

(1) MOTTA, Aricildes de Moraes (Coordenador Geral). História Oral do Exército - 1964 - 31 de Março - O Movimento Revolucionário e sua História. Tomos 1 a 15. Bibliex, Rio, 2003.

(2) IPES - Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais: fundado em 1961 no Rio de Janeiro pelo coronel Golbery do Couto e Silva e um grupo de empresários anticomunistas, dispostos a readequar e a reformular o Estado brasileiro. Tinha por objetivo criar barreiras intelectuais contra a propagação das ideias marxistas durante o governo João Goulart. Promovia Estudos de Problemas Brasileiros para os governos militares pós-1964. O IPES, o IBAD, a CAMDE e as Forças Armadas formaram a base quadrangular decisiva para o desencadeamento da Contrarrevolução de 31 de março de 1964, contra Jango e sua política de implantar a “República Sindicalista” no Brasil. O IPES passou a existir oficialmente no dia 29/11/1961 (Jânio Quadros havia renunciado em agosto do mesmo ano). O lançamento do IPES foi recebido favoravelmente por diversos órgãos da imprensa, como o Jornal do Brasil, O Globo, O Correio da Manhã e Última Hora. Contou com a aprovação do Arcebispo do Rio de Janeiro, Dom Jayme de Barros Câmara. Além do Rio e de São Paulo, o IPES rapidamente se expandiu até Porto Alegre, Santos, Belo Horizonte, Curitiba, Manaus e outros centos menores. O IPES foi formado pelo trabalho do empresário de origem americana, Gilbert Huber Jr., do empresário multinacional Antônio Gallotti, dos empresários Glycon de Paiva, José Garrido Torres, Augusto Trajano Azevedo Antunes, além de serviços especiais de oficiais da reserva, como o general Golbery do Couto e Silva. Sandra Cavalcanti era uma das mais famosas conferencistas do IPES. As sementes do IPES (assim como do IBAD e do CONCLAP) foram lançadas no final do governo JK, cujos excessos inflacionários geraram descontentamento entre os membros das classes produtoras do país, e durante a Presidência de Jânio Quadros, em cujo zelo moralista eles depositaram grandes esperanças. O IPES produziu em torno de oito filmes, para alertar os desmandos do Governo Goulart, como a ameaça comunista; os cineastas eram Jean Mazon e Carlos Niemeyer. Escritores de peso do IPES foram Nélida Piñon, Rachel de Queiroz e José Rubem Fonseca, autor de Feliz Ano Novo; segundo Fonseca, o “IPES buscava mobilizar a opinião pública no sentido do fortalecimento dos valores democráticos” (Gen Del Nero Augusto, in A Grande Mentira). “Somente nas ações contra o regime, despendeu o equivalente a 100 milhões de dólares, fortuna bancada com doações de centenas de grandes e megaempresários brasileiros e estrangeiros. O número de corporações americanas que apoiaram financeiramente a entidade chegou a 297” (FIGUEIREDO, 2005: 107-8) (4). Futuros ministros dos governos militares também foram membros do IPES: Antonio Delfim Netto, Roberto Campos, Mário Henrique Simonsen, Otávio Gouveia de Bulhões, Hélio Beltrão. O IPES teve o apoio também de Paulo Malta (Diário de Pernambuco), Pedro Dantas (pseudônimo de Prudente de Morais Neto), embaixador José Sette Câmara, embaixador e poeta Augusto Frederico Schmidt. Com apoio do IPES foi lançado o livro UNE - instrumento de subversão, em que “a estudante Sônia Seganfredo expunha a infiltração comunista no meio universitário” (ORVIL, pg. 158) (5). O IPES participou também de operações internacionais, que ajudaram a derrubada de Salvador Allende, no Chile, e do general Juan Torres, na Bolívia (em agosto de 1971, o general Hugo Banzer tomou o poder). Entidades congêneres do “Complexo IPES/IBAD”: 1) México: Centro de Estudios Monetarios Latinoamericanos - CEMLA; Centro Nacional de Estudios Sociales - CNES; Instituto de Investigaciones Sociales y Económicas - IISE; 2) Guatemala: Centro de Estudios Económico-Sociales - CEES; 3) Colômbia: Centro de Estudios y Acción Social - CEAS; 4) Equador: Centro de Estudios y Reformas Económico-Sociales - CERES; 5) Chile: Instituto Privado de Investigaciones Económico-Sociales - IPIES; 6) Brasil: Sociedade de Estudos Interamericanos - SEI; Fundação Aliança para o Progresso; 7) Argentina: Foro de la Libre Empresa; Acción Coordinadora de las Instituciones Empresariales Libres. “Em 64, quando Castelo Branco organizou o Governo, a maioria dos cargos foi entregue a quem tinha ensinado ou feito cursinho no IPES. A começar por Golbery e Roberto Campos” (Sebastião Nery, in “Os filhos de 64”, Jornal Popular, Belém, PA, 6/10/1995).

(3) CAMDE - Campanha da Mulher pela Democracia: criada pouco antes das eleições de 1962, sob orientação de Leovigildo Balestieri (vigário franciscano de Ipanema, Rio de Janeiro), Glycon de Paiva e o general Golbery do Couto e Silva. “Eles convincentemente argumentavam que o Exército fora minado pelo ‘vício do legalismo’, que só mudaria se ‘legitimado’ por alguma força civil, e que as mulheres da classe média e alta representavam o mais facilmente mobilizado e interessado grupo de civis” (P. Schmitter, in Interest, Conflict and Political Change in Brazil, Stanford, California University Press, 1971, pg. 447). A CAMDE era uma organização feminina anticomunista, promoveu a “Marcha da Família com Deus pela Liberdade”, no dia 19/3/1964, em São Paulo (19 de março, Dia de São José, Padroeiro da Família), reunindo 500.000 pessoas, protesto que exigia o fim da balbúrdia e da carestia durante o Governo Goulart, e que antecedeu à revolução de 31/3/1964. No dia 2 de abril, a CAMDE reuniu 1 milhão de manifestantes no Rio de Janeiro para agradecer a interferência dos militares nos destinos do país, ocasião em que Aurélia Molina Bastos encerrou seu discurso dizendo: “Nós louvamos, nós bendizemos, nós glorificamos a Deus e o soldado do Brasil”. As mulheres do CAMDE de Minas Gerais ofereceram a Castello Branco, ainda antes de sua eleição, uma nova faixa presidencial, para que não usasse a tradicional, “já conspurcada pelos maus presidentes que o precederam” (O Estado de S. Paulo, 12/4/1964). Outras organizações femininas e grupos católicos atuantes em 1964, além da CAMDE: Liga de Mulheres Democráticas (LIMDE), (MG); União Cívica Feminina (UCF), organizada em 1962 (SP); Campanha para Educação Cívica (CEC); Movimento de Arregimentação Feminina (MAF), teve início em 1954, foi liderado por Antonieta Pellegrini, irmã de Júlio de Mesquita Filho, proprietário de “O Estado de S. Paulo”; Liga Independente para a Liberdade, dirigida por Maria Pacheco Chaves; Movimento Familiar Cristão (MFC); Confederação das Famílias Cristãs (CFC); Liga Cristã contra o Comunismo; Cruzada do Rosário em Família (CRF); Legião de Defesa Social; Cruzada Democrática Feminina do Recife (CDFR); Ação Democrática Feminina (ADF), Porto Alegre, RS.

(4) FIGUEIREDO, Lucas. Ministério do Silêncio - A história do serviço secreto brasileiro de Washington Luís a Lula - 1927-2005. Editora Record, Rio de Janeiro e São Paulo, 2005.

(5) AUGUSTO, Agnaldo Del Nero; MACIEL, Licio; NASCIMENTO, José Conegundes do (Organizadores). ORVIL - Tentativas de Tomada do Poder, Schoba Editora, São Paulo, 2012.

quinta-feira, 1 de novembro de 2012


O milagre petista da ascensão social

Félix Maier

Durante os oito anos do governo Lula, a economia do Brasil, nas Américas, só foi superior à do Haiti da guerra civil, dos terremotos e dos furacões. Comparado à dos BRIC, foi um fiasco total. Assim, eu nunca consegui entender como dezenas de milhões de pessoas tenham saído da pobreza e alcançado, inclusive, a classe média, como a propaganda petista continua repetindo. Para mim, trata-se de um cálculo que nunca se fechou.

No início do governo Dilma Rousseff, o governo alardeava que o País tinha chegado à 6ª. posição, quanto ao PIB. Ocorre que, embutido, estava um embuste, pois o cálculo era simplista, apenas uma conversão do PIB para o dólar bastante desvalorizado, sem levar em conta o valor de compra do real (paridade do poder de compra). Tanto isso é verdade, que em outubro de 2003, o jornal O Globo estampava a seguinte manchete, também com base no cálculo da conversão do real para o dólar, ainda no período da ressaca do “fator Lula”, eleito presidente, o qual ainda inspirava desconfiança no mercado, quando o dólar chegou próximo a R$ 4: “O Brasil passa de 8ª. à 15ª. economia do mundo”. Então é isso: o Brasil dorme em 8º lugar e acorda em 15º, e vice-versa, assim sem mais nem menos?

A revista Veja, de 8/10/2012, no texto “A Belíndia Revisitada” (pg. 94-5), de Giuliano Guandalini, afirma que em 1960, os 10% mais ricos detinham 40% da renda total, aumentando esse índice para 47% em 1970 e 48% em 1980. E que os 10% mais pobres detinham apenas 2% da renda total em 1960, baixando para 1% em 1980. Faltou à revista Veja a decência de dizer quantos brasileiros saíram da miséria no período do governo dos militares, quando o Brasil foi alçado da 46ª para a 8ª potência econômica em apenas uma década. Crescendo a taxas anuais seguidas acima de 10%, chegando a 14% em 1973, é óbvio que milhões de pessoas saíram da pobreza. Quantos milhões foram?

Além do mais, se mais milionários e bilionários surgiram durante o governo dos militares (os tais 10% mais ricos), isso necessariamente não é um mau sinal. Afinal, são os ricos que, com suas empresas e seus negócios, tocam de fato o País, oferecendo milhões de empregos ao povo e promovendo a verdadeira e sustentável ascensão social. Quantos empregos oferecem as empresas de Eike Batista, o homem mais rico do Brasil? No mesmo texto de Veja, o economista Marcelo Néri serve de caixa de ressonância ao embuste petista: “O lado pobre do Brasil cresce tanto quanto a economia da Índia, o lado belga está tão estagnado quanto os países europeus” (pg. 95).

Os fatos, no entanto, são teimosos. “Há uma absurda expansão do crédito, gerando bolhas no setor imobiliário. Temos hoje moças e garotos que compram imóveis financiados por 30 anos pagando a maior taxa de juros do mundo. Daqui a alguns anos, eles ficam desempregados e, aí, teremos um problema social. A propaganda foi a coisa mais eficiente do governo. Há uma espécie de otimismo trágico no Brasil. Nos anos Lula, o país cresceu, em média, 4%. Isso não é mérito. No período, a média mundial foi de 4,4%. Entre os 29 últimos presidentes, Lula fica na 19a. posição” (Reinaldo Gonçalves, in “Uma voz no deserto”, Correio Braziliense, 20/3/2011, pg. 23). O Correio omitiu deliberadamente que a 1ª. posição pertence a Emílio Garrastazu Médici, fato que a esquerda de caviar jamais conseguirá engolir.

Infelizmente, Castello Branco e os governos militares que o sucederam eram contrários à propaganda das realizações do governo. As obras dos militares foram estupendas, como a hidrelétrica de Itaipu, que consumiu em aço o equivalente a 380 torres Eiffel. Em 1963, o PIB era equivalente a 20,6 bilhões de dólares e as exportações, 1,4 bilhão de dólares, com saldo negativo de 244 milhões de dólares. Em 1984, as exportações somavam 27 bilhões de dólares.

Já há algum tempo, Marcelo Neri, da Fundação Getúlio Vargas, vinha batendo nessa tecla da ascensão da classe média, na TV Globo, dos milhões de brasileiros que saíram da miséria e agora estavam participando da festa consumista. Neri chegou até a escrever um livro, A nova classe média, que recebeu elogios da presidente Dilma Rousseff. Em 2010, o governo Lula cantou em verso e prosa o aumento do PIB brasileiro, de 7%, uma façanha vista apenas durante o governo dos militares. Ocorre que esse índice esconde uma meia verdade, para não dizer uma mentira inteira, pois em 2009 o aumento do PIB foi negativo, cresceu para baixo como rabo de cavalo. Assim, na média 2009-2010, o aumento da economia foi em torno de 3%.

Claro que houve uma sensível melhora das pessoas nos últimos anos, principalmente com a estabilidade do Real. Os brasileiros passaram a ter acesso amplo a empréstimos a perder de vista, ainda que a juros estratosféricos. Em 2010, para alavancagem da candidata Dilma Rousseff, Lula não se fez de rogado e irrigou irresponsavelmente o País com dinheiro farto, de modo que hoje metade da população brasileira está encalacrada em dívidas. Mesmo assim, eu não conseguia entender como 20, 30, 40 milhões – o número imaginário varia de acordo com o local do palanque petista – tinham conseguido sair da miséria, já que o crescimento econômico brasileiro continuou muito baixo nos últimos anos. Para 2012, a previsão do ministro da Economia, Guido Mantega, era que o PIB cresceria em torno de 4 a 5%. Hoje, o “pibinho” de 2012 está cotado em 1,5%, o que quer dizer que o Brasil crescerá no máximo 1%.

A explicação do milagre petista ocorreu em 2012, quando, cinicamente, o governo Dilma classificou como classe média os que auferem renda familiar per cápita entre R$ 291,00 e R$ 1.019,00. Ou seja, quem recebe 2 salários mínimos, para os petistas, pertence à baixa classe alta! E quem recebe acima de R$ 2.480,00, pertence à classe alta! Com inveja do “milagre brasileiro” dos militares, os petralhas criaram o milagre da ascensão social das massas, numa canetada! - cfr. http://www1.folha.uol.com.br/mercado/1097561-classe-media-tem-renda-per-capita-de-r-291-a-r-1019-diz-governo.shtml.

O antigo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) foi transformado em “Instituto de Proselitismo Econômico Aplicado”, na perfeita definição de João Luiz Mauad, depois que foi aparelhado por petistas. Assim como o sucessor de FHC não gostava dos dados estatísticos do IBGE, a não ser os que traziam boas notícias, Dilma Rousseff ficou estressada quando o IPEA afirmou o óbvio, que as obras para melhoria dos aeroportos para a Copa de 2014 e as Olimpíadas de 2016 estavam atrasadíssimas. O Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) divulgado pelo Pnud em 2011 contrariou Lula, que, entre uma sessão de quimioterapia e outra, ordenou que o presidente do IPEA, Márcio Pochmann, elaborasse um IDH próprio.

Infiltrado de ativistas ideológicos, atualmente o IPEA tem a mesma credibilidade de um instituto cubano, argentino ou chinês. Recentemente, Marcelo Neri foi nomeado presidente do IPEA. É, sem dúvida, o homem certo no lugar certo.

segunda-feira, 22 de outubro de 2012


Revisionismo esquerdista a serviço
da desinformação
 

Félix Maier

   Paulo Fonteles Filho é filho de Paulo Fonteles, ex-deputado e advogado de posseiros no Sul do Pará, assassinado em 1987. Em seu blog, Fonteles Filho se apresenta orgulhosamente como “comunista”, apesar desta peste vermelha ter ocasionado o assassinato de 110 milhões de pessoas ao redor do planeta: Nasci nos cárceres da repressão política brasileira e os brutamontes diziam que ‘Filho desta raça não deve nascer’. Sou filho de um ventre rebelde, rubro. Sou comunista desde tenra idade e vou levando na lapela a rosa vermelha da esperança.”

    Um dos textos de Fonteles Filho,  A guerra biológica no Araguaia, já começa com o título errado: se realmente foi utilizado o Aldrin no Araguaia, com propósito militar, o correto seria chamar isso de "guerra química", não "biológica". Quem entende de guerra biológica  - ou melhor, de terrorismo biológicosão alguns petistas, que deliberadamente propagaram a praga da vassoura-de-bruxa no sul da Bahia -  cfr. em http://veja.abril.com.br/210606/p_060.html.

   Em seu livro MATA! - O Major Curió e as guerrilhas do Araguaia (1), Leonencio Nossa faz uma permanente comparação da violência dos militares na campanha contra Canudos com a Guerrilha do Araguaia - com louvores a Lampião: “O Exército tinha distribuído Aldrin nas cabanas de castanheiros. No Araguaia, não foi respeitada a lei de Lampião, que não envenenava riachos por onde passavam inimigos” (op. cit. pg. 193).

   O Aldrin era um inseticida utilizado no Brasil nos anos de 1960 e 70 como agrotóxico, além do DDT e BHC, entre outros, que foram proibidos no Brasil a partir de 1985, por decreto federal. Se houve morte de guerrilheiro do PCdoB por ingestão ou contágio de Aldrin, isso foi um caso isolado, não devido a uma “guerra química” promovida pelo Exército, como sugere o articulista vermelho, Fonteles Filho. Além do mais, o aldrin era um produto de fácil alcance por qualquer um, seja posseiro, guerrilheiro ou combatente militar, e qualquer pessoa desses grupos poderia ter sido contaminada devido à manipulação indevida do produto.

   Quanto a Leonencio Nossa afirmar que o Exército envenenou riachos com o aldrin, uma crueldade que nem o querido Lampião fez, é delírio puro. Se algum rio foi contaminado por aldrin ou qualquer outro agrotóxico, isso ocorreu devido à sua utilização na lavoura, não que foi lançado diretamente no rio pelos militares. Afinal, estes também dependiam dos rios e igarapés para sua sobrevivência na selva.

   O que todo combatente militar de selva sabe é que algumas tribos indígenas, como a etnia Sateré-Mawé, utilizam o cipó timbó, que é venenoso, para a pesca. A imersão do timbó na água libera um veneno que age no sistema nervoso cerebral do peixe, que perde o equilíbrio e fica boiando na água, facilitando sua captura. O rios Mawé e Andirá, por exemplo, são rios mortos, não têm vida, devido a essa prática indígena. O efeito do veneno do timbó nos rios pode permanecer durante 10 anos - um verdadeiro desastre ecológico, que lembra o antigo uso de dinamite para pesca.

   A revisão histórica é benéfica, desde que os críticos se atenham a critérios científicos tão ou até mais rigorosos do que aqueles que nortearam a história original.

   É comum entre esquerdistas realizar a revisão da História, de modo que ela fique igual à sua cara, a cara da mentira. O "historiador" José Chiavenato - fonte de consulta do articulista vermelho -, com seu livro Genocídio americano: a guerra do Paraguai, não tem credibilidade nenhuma em seu revisionismo rasteiro sobre a Guerra do Paraguai, em que tenta classificar Caxias e o Conde D'Eu como combatentes monstruosos, e que o Brasil estaria a serviço do império britânico, para massacrar o país "mais progressista" da América do Sul. “Historiadores militares de gabarito assinalaram, nessa obra de Chiavenato, mais de 30 erros históricos comprovados e outras tantas distorções da verdade comprovando o relativismo e o absolutismo com que o autor manipulou a história” (PEDROSA: 2008, 69). (2)

   O Brasil, no início de Guerra do Paraguai, era um "império desarmado". “A proposta liberal de Adam Smith em A Riqueza das Nações, em moda durante a segunda metade do século XIX, induzira no Brasil um certo descuido com o exército profissional, embora o famoso pensador sempre propugnasse por uma força militar organizada para fundamentar e garantir o progresso e a segurança da nação (PEDROSA, 2004: 209 - capítulo “Império Desarmado”). (3)

   A Guerra do Paraguai só tem uma história: o Brasil, com muito custo, conseguiu reunir 15.000 homens armados, para se defender da agressão de Solano López, à frente de um exército de 64.000 homens, que aprisionou um navio brasileiro (em que viajava o presidente da Província de Mato Grosso), invadiu o Mato Grosso, ocupando parte desse território por três anos, violou o território da Argentina e chegou a conquistar Uruguaiana.

   Todo país tem o direito natural de se defender contra a agressão estrangeira. Foi o que o Brasil fez contra o Paraguai e ponto final.

   Todo revisionista vermelho deveria ter passado pelo menos 15 anos num gulag soviético, ou 10 anos numa “leoneira” (4) cubana, para dar valor à liberdade e à democracia, que tanto prega - apenas da boca para fora, já que defende, até hoje, regimes totalitários, como o de Cuba.

   A recente história do Brasil é uma só: os militares evitaram que o Brasil se transformasse num imenso “Cubão”, no dizer de Elio Gaspari. Daí o revanchismo da esquerda, derrotada ontem e hoje no poder, em sua prática de satanizar as Forças Armadas, com o propósito de se perpetuar no poder. Um exemplo desse maniqueísmo pueril, em que os antigos terroristas são apresentados como heróis, e os militares como bandidos, é a famigerada Comissão Nacional da Verdade - o Pravda tupiniquim - que tenta reescrever a história dos governos militares pós-1964 dentro da ótica marxista da desinformação.



   Notas:

   (1) NOSSA, Leonencio. MATA! O Major Curió e as Guerrilhas no Araguaia. Companhia das Letras, São Paulo, 2012.

   (2) PEDROSA, J. F. Maya. O Revisionismo Histórico Brasileiro - Uma proposta para discussão. Bibliex, Rio, 2008.

   (3) PEDROSA, J. F. Maya. A Catástrofe de Erros - Razões e Emoções na Guerra contra o Paraguai. Bibliex, Rio, 2004.

   (4) Leoneira - Solitária ambulante, feita de seis lados de grades de ferro, onde o preso não pode se deitar, nem ficar de pé. Tipo de tortura adotada em Cuba durante a ditadura de Fidel Castro, onde os presos são largados no teto do presídio, alternando altas temperaturas do sol durante o dia com baixa temperatura à noite. O escritor Pedro Juan Gutiérrez, autor de Trilogia suja de Havana, esteve preso em tal jaula.

 

quinta-feira, 20 de setembro de 2012


Ação Popular -
A ala terrorista oriunda
da Igreja Católica

 Félix Maier

Em 1935, o Cardeal Leme cria no Rio de Janeiro a Ação Católica, para ampliar a influência da Igreja na sociedade. A Ação Católica era dirigida por Alceu de Amoroso Lima, seguia o conceito do Papa Pio XI e era favorável ao Integralismo, sendo acompanhado por vários padres, entre os quais Hélder Câmara. Outros intelectuais católicos: Jackson de Figueiredo (atuação a partir de 1918), Gustavo Corção, Alfredo Lage, Murilo Mendes, Pe. Leonel Franca; convertidos ao catolicismo: o positivista Júlio César de Morais Carneiro, Pe. Júlio Maria (redentorista), Joaquim Nabuco, Carlos de Laet, Felício dos Santos, Afonso Celso, além de Alceu Amoroso Lima.

A dissolução da Ação Integralista Brasileira (AIB) por Getúlio Vargas em 1938 e a derrota do Fascismo na II Guerra Mundial fizeram com que a Ação Católica se afastasse daquela linha ideológica e, com Dom Hélder Câmara, passou a adotar o modismo esquerdista, atrelado a pensadores como Emanuel Mounier, Teillard de Chardin, Lebret e outros. No início da década de 1960, a Igreja estava ideologicamente dividida, tendo à esquerda Dom Hélder e à direita Dom Jaime de Barros Câmara e Dom Vicente Scherer. A Ação Católica tinha 3 organismos para condução de suas atividades: Juventude Estudantil Católica (JEC) - no meio secundarista, Juventude Operária Católica (JOC) - no meio operário, e Juventude Universitária Católica (JUC) - formado por estudantes de nível superior. A PUC do Rio de Janeiro, orientada pelo Pe. Henrique Vaz, era o principal reduto esquerdista da JUC, onde despontava o líder Aldo Arantes.

Em Minas Gerais, a Faculdade de Ciências Econômicas da UFMG reunia os principais agitadores da esquerda católica, como Herbert José de Souza ("Betinho"). Integrantes de renome da AP foram José Serra, Paulo Renato, Haroldo Lima, Vinícius Caldeira Brandt, Cláudio Fonteles, Cristóvam Buarque, Plínio de Arruda Sampaio, Henrique Novais, Jean Marc Von Der Weid e Marcos Arruda.

Em 1961, no XXIV Congresso da UNE, a JUC, aliando-se ao PCB, elege Aldo Arantes para a presidência da entidade. “A AP cresceu com tal velocidade no movimento estudantil que nós, os comunistas, que vínhamos ganhando a presidência da UNE desde 56, a partir de 60 perdemos a AP, com Aldo Arantes, Vinícius Caldeira Brant, José Serra” (Sebastião Nery, in “Os filhos de 64”, Jornal Popular, Belém, PA, 6/10/1995).

Logo depois, a UNE filiou-se à União Internacional dos Estudantes (UIE), organização de frente do Movimento Comunista Internacional (MCI), culminando na ira dos conservadores da Igreja, que expulsaram Aldo Arantes da JUC. Os católicos de esquerda, doutrinados para a “revolução brasileira”, abandonaram a Ação Católica e criaram a Ação Popular (AP) em 1962, após congresso realizado em Belo Horizonte.

Durante o governo Goulart, a AP empenha-se nas “reformas de base”, situando-se à esquerda do PCB, o que causa a fuga de seguidores para o exterior após a Contrarrevolução de 1964. A AP apoiava o Método Paulo Freire para alfabetização de adultos, de orientação marxista, o qual foi um plágio, para muito pior, do Método Laubach, de Frank Charles Laubach, missionário americano que alfabetizou 60% da população filipina.

A AP continua sua atuação no meio universitário e, nas discussões comunistas de 1965 a 1967, passa a seguir a linha maoísta, com a Revolução Cultural chinesa (que matou 10 milhões de pessoas), apoiando a luta revolucionária. Cuba doou 14 mil dólares para a AP enviar militantes para cursos de guerrilha naquele país. A AP enviou militantes para fazer cursos em Pequim, incluindo Haroldo Lima. A AP criou o Movimento Contra a Ditadura e pregou o voto nulo para as eleições parlamentares de 15/11/1966. A AP enviou representante a Cuba para a IV Conferência Latino-Americana de Estudantes (1966) e teve infiltração no setor metalúrgico (ABC paulista e Contagem, MG).

No campo, a AP organizou camponeses para cortar arame das propriedades (“picada de arame”) e o abate de gado a tiros; as áreas escolhidas para a agitação foram o Vale do Pindaré (MA), a região Água Branca (AL), Zona da Mata (PE) e Zona Cacaueira (Sul da Bahia).

Em 1966, a AP optou pela luta armada e pelo foquismo, em Congresso realizado no Uruguai, e passou a publicar o jornal Revolução. A ação terrorista mais conhecida do movimento foi o atentado no Aeroporto de Guararapes, em 25/7/1966. O alvo era o presidente Costa e Silva, que se salvou porque o voo atrasou. No entanto, morreram no local o almirante reformado Nelson Gomes Fernandes, que teve o crânio esfacelado, e o jornalista Edson Régis de Carvalho, que teve o abdômen dilacerado. O então tenente-coronel Sylvio Ferreira da Silva, hoje general reformado, sofreu amputação traumática dos dedos da mão esquerda e teve lesões graves na coxa esquerda, além de queimaduras de primeiro e segundo graus. Ao todo, houve 15 vítimas, incluindo os acima citados: o inspetor de polícia Haroldo Collares da Cunha Barreto, Antônio Pedro Morais da Cunha, os funcionários públicos Fernando Ferreira Raposo e Ivancir de Castro; os estudantes José Oliveira Silvestre e Amaro Duarte Dias; a professora Anita Ferreira de Carvalho; a comerciária Idalina Maia; os guardas José Severino Barreto e Sebastião Thomaz de Aquino, o “Paraíba”, que teve uma perna amputada; Eunice Gomes de Barros e seu filho Roberto Gomes de Barros, de apenas seis anos de idade.

O mentor do ato terrorista foi o ex-padre Alípio de Freitas, hoje residente em Lisboa, que era membro da comissão militar e dirigente nacional da AP e já atuava nas Ligas Camponesas de Francisco Julião. O executor do crime foi Raimundo Gonçalves Figueiredo, militante da AP. Pela bela obra cívico-cristã, Alípio de Freitas foi beneficiado com indenização de R$ 1,09 milhão, piñata recebida da famigerada Comissão dos Mortos e Desaparecidos Políticos, e Raimundo G. Figueiredo é nome de rua em Belo Horizonte (sua família também foi indenizada).

Em 1968, para evitar outros “rachas”, a AP elaborou o documento “Seis Pontos de Luta Interna”, procurando consenso entre as Correntes 1 e 2. De inspiração maoísta, “o 1º ponto caracterizava o pensamento de Mao como a 3ª etapa da revolução marxista; o 2º ponto descrevia a sociedade brasileira como semicolonial e semifeudal; o 3º definia o caráter da revolução como nacional e democrática; o 4º fazia a opção pela guerra popular como forma de luta; o 5º referia-se aos partidos comunistas, considerando que o PCB se havia ‘contaminado pelo revisionismo’ e que o PC do B era um novo partido e não o continuador do PC fundado em 1922; finalmente o 6º ponto propunha a integração dos militantes à produção (isto é, que deixassem suas profissões e passassem a trabalhar e viver como operários e camponeses), com o objetivo de provocar a transformação ideológica dos que tinham origem pequeno-burguesa” (AUGUSTO, 2001: 263) (1).

Após sua I Reunião Ampliada da Direção Nacional, a AP elegeu a China como modelo de revolução, ao mesmo tempo em que se afastou do PC de Cuba, retirando-se da OLAS (2) e propondo que a UNE se afastasse da OCLAE (3), por considerá-la de “imobilismo e burocratismo”.

Em 1969, um militante da AP participou do sequestro do embaixador Americano Charles Burke Elbrick, em apoio ao MR-8. Em 1971, à noite, uma militante da AP atraiu Antônio Lourenço (“Fernando”), também da AP, para uma emboscada; “Fernando” recebeu vários tiros de rifle 44 e de revólver e foi trucidado a porretadas até a morte; o “justiçamento” ocorreu em Pindaré-Mirim (MA) e foi planejado pelo Comitê Seccional de Santa Inês, subordinado ao CR-8 (Coordenador das atividades da organização no Maranhão e no Piauí).

Em abril de 1971, após a II Reunião Ampliada da Direção Nacional, a AP assumia a denominação de Ação Popular Marxista-Leninista do Brasil (APML do B). Posteriormente, foi aprovada a tese de unificação da AP com o PC do B. Maria José Jaime, membro do PT/DF (dirigente do INESC), foi um dos “militantes” que receberam treinamento na China, em 1969, quando pertencia à AP.

José Serra, presidente da UNE quando se iniciou a Contrarrevolução de 31/3/1964, foi ministro da Saúde no governo FHC e governador e prefeito de São Paulo. Paulo Renato foi ministro da Educação no governo FHC. Cristóvam Buarque foi governador do Distrito Federal, ministro da Educação no governo Lula e, hoje, é senador da República. Cláudio Fonteles, atualmente membro leigo da Ordem de São Francisco, foi procurador-geral da República de 2003 a 2005, durante o governo Lula da Silva. Fonteles, o beato de pau oco, é, também, membro da famigerada Comissão Nacional da Verdade, o Pravda Tupiniquim, que recebeu da presidente Dilma Rousseff a missão de reescrever a História recente do Brasil à cara da esquerda, ou seja, à cara da mentira e da calúnia, cujo objetivo maior é enaltecer os honoráveis terroristas de esquerda e satanizar membros das Forças Armadas durante dois longos anos (2012-2014).

 
Notas:

(1) AUGUSTO, Agnaldo Del Nero. A Grande Mentira. Bibliex, Rio, 2001.
 
(2) OLAS - Organización Latinoamericana de Solidaridad: no dia 16/1/1966, 1 dia após o término da Conferência Tricontinental (4), em Havana, Cuba, as 27 delegações latino-americanas reuniram-se para a criação da OLAS, proposta por Salvador Allende. O terrorista brasileiro Carlos Marighela foi convidado oficial para a Conferência da OLAS em 1967. Ola, em espanhol, significa “onda”, seriam, pois, ondas, vagalhões de focos guerrilheiros espalhados por toda a América Latina, como disse o próprio Fidel Castro: “Faremos um Vietnã em cada país da América Latina”. Após a Conferência, começam a surgir movimentos guerrilheiros em vários países da América Latina, principalmente no Chile, Peru, Colômbia, Bolívia, Brasil, Argentina, Uruguai e Venezuela. A OLAS, substituída pela JCR, tem sua continuidade no Foro de São Paulo (FSP) e no Fórum Social Mundial (FSM).
 
(3) OCLAE - Organização Continental Latino-Americana de Estudantes: fundada em 1966, em Havana, Cuba, esse onagro era o centro de irradiação comunista no continente. Através da luta armada, tinha por objetivo implantar o Comunismo internacional, organizando escolas de guerrilhas em Cuba, para preparar futuros guerrilheiros. Em 1967, organizou-se em Cuba a Conferência OLAS (Organização Latino-Americana de Solidariedade), com a presença de Carlos Marighela, do Brasil, e Salvador Allende, Senador do Chile. Após esses eventos, surgiram no Brasil a ALN, a FALN, a FELA, o MRT, a AP, a VPR, o COLINA, a VAR-Palmares (fusão da VPR + COLINA); a REDE (Resistência Democrática) apareceu em 1969. Em 1971, o presidente do Chile, Salvador Allende, afirmou: “Cheguei a este cargo para realizar a transformação econômica e social do Chile, para abrir o caminho para o socialismo. Nosso objetivo é o socialismo marxista, científico, total”.
 
(4) Conferência Tricontinental - Criada durante a OSPAAAL (5), que se realizou em Havana, Cuba, de 3 a 15/1/1966 – juntamente com o XXIII Congresso do PCUS. (Em 1965, em Gana, ficou decidido que a OSPAA realizaria seu próximo encontro em Cuba, no ano seguinte, para integrar também a América Latina – daí OSPAAAL). “Consiste no princípio de que a coexistência pacífica não se pode estender às chamadas ‘guerras de libertação nacional’, isto é, às guerras ‘entre oprimidos e opressores, entre os povos coloniais explorados e seus exploradores colonialistas e imperialistas’ ” (Meira Penna, in Política Externa, pg. 133). À Tricontinental compareceram representantes de 82 países, dos quais 27 latino-americanos. A delegação brasileira foi composta por Aluísio Palhano e Excelso Rideau Barcelos (indicados por Brizola), Ivan Ribeiro e José Bastos (do PCB), Vinícius Caldeira Brandt (da AP) e Félix Ataíde da Silva, ex-assessor de Miguel Arraes, na época residindo em Cuba. A tônica do encontro foi a defesa da luta armada. No encerramento, Fidel Castro afirmou que a “luta revolucionária deve estender-se a todos os países latino-americanos”. A Tricontinental foi a estratégia que desencadeou a Guerra do Vietnã e guerras civis como em Angola e Moçambique, e os grupos terroristas que surgiram na América Latina a partir de 1967/68, especialmente no Brasil, Argentina e Chile. No campo cultural, a Declaração da Tricontinental recomendava a “publicação de obras clássicas e modernas, a fim de romper o monopólio cultural da chamada civilização ocidental cristã, cuja derrocada deve ser o objetivo de todas as organizações envolvidas nessa verdadeira guerra”. Nesse encontro, o senador Salvador Allende (futuro Presidente do Chile) faria uma proposta aprovada por unanimidade pelas 27 delegações: a criação da OLAS. Assim, no dia 16/1/1966, um dia após o término da Tricontinental, as 27 delegações latino-americanas reuniram-se para a criação da OLAS, que passou a ser dirigida pelo Comitê de Organização, constituído de representantes de Cuba, Brasil, Colômbia, Peru, Uruguai, Venezuela, Guatemala, Guiana e México. A Secretaria-geral foi entregue à cubana Haydee Santamaria, e o representante brasileiro era Aluísio Palhano.
 
(5) OSPAAAL - Organização de Solidariedade aos Povos da Ásia, África e América Latina: Conferência Tricontinental de Havana, que propunha realizar programas de cooperação de guerrilhas revolucionárias para a África, Ásia e América Latina. “A luta revolucionária armada constitui a linha fundamental da revolução na América Latina. Para a maioria dos países do continente o problema de organizar, iniciar, desenvolver e culminar a luta armada constitui hoje a tarefa imediata e fundamental do movimento revolucionário” (Resolução da I Conferência da OSPAAAL, Havana, 28 Jul a 5/8/1967). Iniciada a luta revolucionária por Che Guevara na Bolívia, A OCLAE, a OLAS e OSPAAAL foram os germes dos movimentos guerrilheiros instalados na América Central (especialmente na Nicarágua, El Salvador e Guatemala), na Colômbia (que até hoje sofre com o terror das FARC e do ELN), na Bolívia (onde morreu Che Guevara), no Peru (onde o Presidente Fujimori praticamente extinguiu o Sendero Luminoso e o MRTA), no Chile (onde Pinochet evitou que a política marxista de Salvador Allende levasse o país ao comunismo), no Brasil (onde surgiram dezenas de movimentos, como a ALN, o MR-8, a VPR, o COLINA), na Argentina (com os Montoneros) e no Uruguai (com os Tupamaros).
 
 
Para conhecer a história do terrorismo esquerdista no Brasil, acesse Wikipédia do Terrorismo no Brasil