terça-feira, 6 de janeiro de 2009

Ricardo Kotscho, o buldogue de Lula

Félix Maier

7/2/2007

O livro de Ricardo Kotscho, Do golpe ao Planalto (*), é uma autobiografia do jornalista que na maior parte de sua vida teve como missão “grudar” em Lula – um trabalho imposto por Mino Carta. Kotscho participou de todas as campanhas presidenciais de Lula, exceto a de 1998, e foi o secretário de Imprensa e Divulgação da Presidência da República nos dois primeiros anos de governo do petista (2003 e 2004) e esperava-se que o livro traria algumas novidades sobre Lula. Nesse sentido, foi uma decepção. Parece até que todos fizeram um pacto de silêncio, de Waldomiro Diniz a Carlinhos Cachoeira, de Delúbio Soares aos mensaleiros, dos sanguessugas a Ricardo Kotscho.

Kotscho, ao longo de sua obra, mostra ser um bom sujeito, muito bem-humorado e equilibrado nas análises que faz da política brasileira. Não se utiliza de palavras de ordem tão comuns entre autores de esquerda, os quais, ao invés de discorrer com objetividade sobre a recente história brasileira, preferem dar seus pitacos, repetindo mentiras e meias-verdades por meio de jargões já rotos na Europa do Leste, porém ainda muito atuais nessa terra que reverencia múmias ideológicas como Fidel Castro e Hugo Chávez. Kotscho nunca se filiou a nenhum partido, por isso guarda uma boa distância das tendências políticas em voga nesta Terra dos Papagaios. Porém, quando se trata de defender os amigos, o faz com vigor, mesmo tendo pertencido a movimentos clandestinos e terroristas, como Frei Betto e o jornalista Flávio Tavares.

Por estar tanto tempo “grudado” em Lula, era de se esperar um pouco mais de Kotscho, o “buldogue de Lula”.

Abaixo, alguns dos trechos mais importantes do livro.


Kotscho no Estadão: a nomenklatura tupiniquim

“Com seu jeito manso de falar, Fernando Pedreira, o diretor de redação, assim como quem não quer nada, me passou um recorte de jornal. Era uma extensa reportagem do correspondente do New York Times em Moscou sobre a boa vida e os privilégios dos superfuncionários do governo comunista na hoje extinta União Soviética. ‘Aqui no Brasil está acontecendo a mesma coisa, os mesmos abusos, talvez até pior. Levanta isso pra mim, não tem pressa’.
(...) A tese de Fernando Predeira era que se criara no Brasil, a exemplo do que ocorria na União Soviética, uma casta formada por tecnocratas e militares que, graças à censura imposta aos meios de comunicação, montaram um esquema de poder paralelo fora de todo controle. Em suas viagens ao Rio e a Brasília, o diretor de redação ouvira de alguns amigos histórias de gastos absurdos, as quais podiam servir de ponto de partida para o levantamento da matéria. O problema era que as ‘fontes’ – como são chamadas no jargão jornalístico as pessoas que se dispõem a dar informações aos repórteres – só admitiam falar em off absoluto – ou seja, seus nomes não podiam jamais aparecer.
(...) Nessas conversas, eu não podia nem falar sobre os verdadeiros objetivos da matéria. ‘Estou preparando uma reportagem de comportamento sobre a vida em Brasília, os hábitos das pessoas...’, era o argumento que usava. Foi um senador da oposição, Roberto Saturnino Braga, do MDB, quem me deu a primeira pista: ‘Você tem que começar a ler o Diário Oficial. Está tudo lá. É só procurar o que sai publicado sob a rubrica ‘mordomias’.
De fato, a certeza da impunidade chegara a tal ponto que as longas listas de comes e bebes para residências oficiais, compras de flores e de peças de decoração, aluguel de carros e de jatinhos executivos, reformas em mansões e requisição de passagens aéreas, uso indiscriminado de cartões de crédito, distribuição de dividendos em empresas estatais deficitárias, salários astronômicos – tudo era publicado na imprensa oficial. Uma ou outra informação já vazara para a imprensa. Mas, como os jornalistas não tinham o hábito de ler o Diário Oficial e ainda estavam condicionados pelos anos de censura a não ir atrás de denúncias contra o governo militar, as mordomias continuavam sendo um assunto do conhecimento de poucos.
(...) Lá para o fim de junho de 1976, entreguei a encomenda ao diretor de redação, certo de que ele se entusiasmaria com o que fora apurado e daria a ordem para iniciar a publicação no dia seguinte. Pedreira, porém, nem chegou a ler todas as matérias. Após uma rápida olhada naquela maçaroca de laudas, pensou um pouco, coçou os cabelos brancos e decidiu consultar Julio de Mesquita Neto, o dono do jornal responsável pela parte editorial. ‘Acho melhor a gente tratar este assunto com muito cuidado. O Congresso Nacional vai entrar em recesso de julho, talvez seja melhor esperar a reabertura em agosto. Vai dar mais repercussão. (...) Só me lembro do susto que levei ao voltar de Martim de Sá, em Caraguatatuba, no domingo 1º de agosto e, na banca, dar de cara com a manchete do Estadão: ‘Assim vivem os superfuncionários’. Claro que fiquei contente, até orgulhoso, mas ao mesmo tempo me deu um frio na barriga. Tratava-se, afinal, da primeira reportagem de denúncia sobre abusos e desmandos cometidos por integrantes do governo dos generais implantado doze anos antes.
A pressão dos militares sobre a direção do jornal foi dura e imediata. Julio de Mesquita Neto seria convocado pelo presidente Ernesto Geisel para se explicar em Brasília. (...) A oposição encontrou farta munição para partir para o ataque. ‘Se houvesse responsabilidade, o mínimo que se pode dizer é que o escândalo das mordomias já teria posto abaixo o governo’, disparou o senador gaúcho Paulo Brossard, um dos líderes do MDB. ‘Em nenhum país do mundo civilizado tal fato teria acontecido sem a imediata substituição do governo’. Apesar do barulho provocado pelas matérias, a conseqüência prática das denúncias foi nula. Ninguém foi punido, ninguém perdeu seus privilégios, e as mordomias passaram a fazer parte do nosso vocabulário político, atravessando décadas, indo alegremente dos governos militares para os civis e sobrevivendo a qualquer tentativa de acabar com a impunidade dos donos do poder” (Ricardo Kotscho, in
Do Golpe ao Planalto, pg. 9, 10, 11, 12 e 13).
Obs.: Ou seja, tudo continua como dantes no terreiro dos xavantes (F.M.).

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