quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

Operação Brother Sam, uma Operação fantasma

Félix Maier

24/04/2008

Entra ano e sai ano, e as esquerdas repetem, ad nauseam, que o “golpe” de 1964 no Brasil foi realizado pela CIA, através da "Operação Thomas Mann" - uma referência ao nome do Secretário-Assistente de Estado para Negócios Interamericanos do Governo Lyndon Johnson.

Ocorre que é mentirosa a versão da participação dos norte-americanos na Contra-revolução brasileira de 1964. Os documentos da inexistente “Operação Thomas Mann” foram forjados pela espionagem tcheca que, em 1964, atuava no Brasil via KGB. Essa mentira foi montada por Ladislav Bittman, que chefiava o serviço de desinformação da Tchecoslováquia. Em seu livro The KGB And Soviet Disinformation, publicado em Washington, Bittman declara: “Queríamos criar a impressão que os Estados Unidos estavam forçando a Organização dos Estados Americanos (OEA) a tomar uma posição mais anticomunista, enquanto a CIA planejava golpes contra os regimes do Chile, Uruguai, Brasil, México e Cuba (...) A Operação foi projetada para criar no público latino-americano uma prevenção contra a política linha dura americana, incitar demonstrações mais intensas de sentimentos antiamericanos e rotular a CIA como notória perpetradora de intrigas antidemocráticas”. Veja outros dados sobre a “Operação Thomas Mann” no endereço http://www.ternuma.com.br/esquerda.htm.

No texto do Ternuma, lemos o seguinte trecho:

"Embora as revelações de Ladislav Bittman tenham sido tornadas públicas no ano de 1985, a imprensa brasileira nada publicou a respeito, talvez por ignorância ou, quem sabe, por não querer que a opinião pública viesse a tomar conhecimento da mentira que durante anos enganou o povo brasileiro.
A Revista Veja na sua edição nº 1777, de 13/11/02, publica a matéria ‘O Fator Jango’ de autoria de João Gabriel de Lima, onde este mesmo assunto é abordado. Para maior entendimento transcrevemos a seguir a sua parte principal:
`O básico desse enredo foi escrito nos anos setenta pela historiadora americana Phyllis Parker, na obra de referência 1964: O Papel dos Estados Unidos no Golpe de Estado de 31 de Março. Phyllis entrevistou os principais personagens do episódio e teve acesso à maior parte da correspondência secreta. Chegou à conclusão de que o golpe de 1964 foi dado mesmo por brasileiros, não por americanos. Hoje isso soa óbvio, mas na época, até por falta de bons livros em português sobre o assunto, imperava a versão esquerdista de que a tomada de poder pelos militares havia sido planejada em Washington e incluiria até uma invasão do Brasil por marines americanos. Phyllis mostra que os Estados Unidos realmente acompanhavam a situação de perto, faziam seus lobbies e sua política com a costumeira agressividade, e tinham um plano B para o caso de o País entrar em guerra civil. Entretanto, nas palavras da historiadora, não há provas de que os Estados Unidos instigaram, planejaram, dirigiram ou participaram da execução do golpe de 1964. O resto é teoria conspiratória` ”.

O livro 1964: O Papel dos Estados Unidos no Golpe de Estado de 31 de Março (Civilização Brasileira, Rio, 1977), da historiadora norte-americana Phyllis R. Parker, com tradução de Carlos Nayfeld, diz textualmente, nas "Conclusões", à pg. 128:

"Não há provas de que os Estados Unidos instigaram, planejaram, dirigiram ou participaram da execução do golpe de 1964. Cada uma dessas funções parece ter competido a Castelo Branco e seus companheiros de farda. A mesmo tempo, há sugestivas evidências de que os Estados Unidos aprovaram e apoiaram a deposição militar de Goulart quase que desde o princípio. Os Estados Unidos reforçaram o seu apoio ao elaborar planos militares preventivos que poderiam ter sido úteis para os conspiradores, se houvesse surgido a necessidade".

E que planos militares preventivos foram esses?

Algumas transcrições do livro da Sra. Parker podem elucidar o leitor o que veio a ser o referido “Plano B” a que se refere o articulista de Veja, a quase desconhecida “Operação Brother Sam”, uma operação que teve início, sim, mas que foi abortada ainda em seu início, porque não houve necessidade de ser desencadeada (pg. 99 a 116):


"Atividades dos Estados Unidos

Aceleração das Comunicações

Quando o desenrolar dos acontecimentos no Brasil atingiu um ponto crítico, os norte-americanos aceleraram a eficiência de suas comunicações. Um teletipo, instalado na Embaixada durante a semana que se sucedeu ao regresso de Gordon de Washington, permaneceu em funcionamento durante parte da primeira semana de abril, com trocas de mensagens entre o Departamento de Estado e a Embaixada no Rio, geralmente programadas duas vezes por dia. Na tarde de 30 de março, o Secretário de Estado Dean Rusk instruiu a Embaixada no Brasil a intensificar a disseminação de informações, incluindo a Casa Branca, o Gabinete do Secretário de Defesa, os Chefes Conjuntos do Estado-Maior, o Comandante-Chefe do Comando Sul e a CIA como destinatários `de todos os telegramas importantes tratando de questões substanciais`. Washington deu um passo mais adiante. Um cabograma enviado naquela noite pelo Secretário de Estado Rusk (redigido por Burton e aprovado por Mann) instruía todos os consulados norte-americanos no Brasil a ficarem vigilantes 24 horas por dia e a comunicarem diretamente a Washington `qualquer ocorrência significativa envolvendo a resistência militar ou política ao regime de Goulart`. O Embaixador Gordon cancelou uma viagem a Alagoas, por sugestão de Vernon Walters, que estava convencido de que o golpe começaria no dia 31.
Na noite de 30 de março, Niles Bond, cônsul-geral em São Paulo, cabografou a Washington que `duas fontes ativas do movimento contra Goulart dizem que o golpe contra o GOB [Governo do Brasil] deve ocorrer dentro de quarenta e oito horas`. Bond não acreditava naquele prazo de quarenta e oito horas, mas não tinha dúvidas de que a oposição a Goulart estava tomando a ofensiva. O cônsul acrescentava uma mensagem importante: esses dois eminentes conspiradores haviam indagado pela primeira vez `se a frota norte-americana poderia alcançar rapidamente o Sul do Brasil`" (pg. 99 e 100)

"Às 11,30 da manhã de 31 de março, realizou-se uma reunião em Washington da qual participaram o Secretário Dean Rusk e outros representantes do Departamento de Estado; o Secretário de Defesa Robert McNamara; o Chefe do Estado-Maior General Maxwell Taylor; o Comandante-Chefe das Forças do Sul (USCINCSO) Tenente-General Andrew P. O’Meara; o Diretor da CIA John McCone; e outros funcionários. Na reunião, houve relatórios sobre a situação militar do Brasil. O grupo considerou que ações políticas deviam ser tomadas (tais como consulta a outros países latino-americanos, declarações públicas, etc.) e discutiu as disposições organizacionais para lidar com a crise brasileira, inclusive a criação de um grupo de trabalho interdepartamental e a consideração de `relações e comunicações entre a Embaixada [dos Estados Unidos] no Rio, os consulados e as forças militares norte-americanas.
Nessa reunião, ou numa outra realizada antes, considerou-se e aprovou-se um plano militar preventivo que ia mais longe do que as duas sugestões da Embaixada no Rio de que se deviam enviar petróleo e uma frota de porta-aviões ao Brasil. Esse terceiro plano compreendia providências que incluíam o envio de armas e munições ao Brasil, como apoio preventivo aos conspiradores" (pg. 101).


"Planos em Ação

Na tarde de 31 de março, os Estados Unidos começaram a transformar os planos preventivos em ação. O primeiro plano executado enviou um porta-aviões de ataque pesado, o Forrestal, e destróieres de apoio (inclusive um destróier equipado com mísseis teleguiados) em direção das águas brasileiras. A finalidade dessa força-tarefa era ‘firmar a presença dos Estados Unidos nessa área e estar preparada para executar as tarefas que lhe fossem designadas’. Os navios deviam partir de Norfolk, Virgínia, às 7 da manhã, hora local (9 da manhã no Rio de Janeiro), a 1º de abril, e deviam chegar a Santos, porto de São Paulo, por volta do dia 11. O apoio adicional dos navios compreendia petroleiros bélicos, navios de munição e navios de mantimentos.
Entrementes, o General-de-Divisão George S. Brown era nomeado Comandante de Missão para o projeto ‘Brother Sam’ (Irmão Sam). Essa operação combinava a força-tarefa do porta-aviões e o apoio de POL, planejados pela Embaixada no Rio, com a operação preventiva originada em Washington, a fim de fornecer armas e munição para os conspiradores militares do Brasil.
Os JCS (Chefes Conjuntos do Estado-Maior) instruíram o Comandante-Chefe do Sul, General Andrew O’Meara, para transportar por avião 250 espingardas de caça, calibre .12, marcadas ‘Brother Sam’ para a Base Aérea de Ramey, em Porto Rico, às 3 da manhã, hora do Rio de Janeiro, a 1º de abril. Além disso, 110 toneladas de armas portáteis e munição marcadas ‘Brother Sam’ deveriam chegar o mais tardar ao meio-dia, hora oficial do Leste americano, à Força Aérea McGuirre, New Jersey, para serem transportadas por avião para o Brasil. Os aviões destinados a essa missão compreendiam: sete aviões de transporte C135, oito aviões de caça, até oito aviões-tanque (para apoio do socorro aéreo), um avião de comunicações e um posto de comando transportado pelo ar.
Os JCS enfatizaram o caráter sigiloso das instruções ‘Brother Sam’ de que quatro navios-tanques fossem carregados com um total de 136.000 barris de gasolina comum, 272.000 barris de combustível para jatos, 87.000 barris de gasolina de aviação, 35.000 barris de óleo diesel e 20.000 barris de querosene. Os navios eram esperados em Aruba às 7 da noite, hora do Rio de Janeiro, de 31 de março, onde o POL seria carregado" (pg. 103 e 104).


"A Trilha dos Estados Unidos

A 31 de março, o ex-Presidente Juscelino Kubitschek distribuiu uma declaração ambígua à imprensa e ao rádio, durante o dia, na qual dizia: `Ainda é tempo de salvar a paz e a legalidade, restabelecendo a disciplina e a hierarquia militar por amor ao País, aos brasileiros e a Deus`. Gordon considerou isso um sinal otimista e comunicou a Washington que, se conseguisse ver Juscelino naquela noite, procuraria `naturalmente sondá-lo sobre as razões de seu otimismo`. Gordon, de fato, encontrou-se com Juscelino na residência do ex-Presidente por volta das 9 horas da noite. Gordon queria que Juscelino assumisse uma posição mais forte contra Goulart e que usasse sua enorme influência para `reunir um grande grupo parlamentar e assim influir na questão da legitimidade`. Juscelino achava que o problema da legitimidade que tanto preocupava Gordon seria prontamente resolvido pelo Congresso, se houvesse lastro militar favorável. O ex-Presidente estava furioso com a falta de notícias de São Paulo (o General Kruel ainda não iniciara a sua marcha) e continuava a mudar de estações de rádio. Juscelino explicou que o apoio de São Paulo era muito importante porque, se a revolta de Mourão fosse sufocada, `Goulart estaria no caminho direto da ditadura`. Quando Gordon saiu da casa de Juscelino, Kruel ainda não se manifestara.
Às 11 horas da noite de 31 de março, o Coronel Walters foi ao apartamento do General Floriano de Lima Brayner. Walters explicou que o Embaixador Lincoln Gordon queria saber como estava a situação no Brasil. Brayner informou que Kruel lançara seu manifesto.
- Graças a Deus - respondeu o coronel norte-americano.
Às 7 horas da manhã do dia 1º de abril, na Base Aérea no Panamá (9 horas no Rio de Janeiro), uma força-tarefa conjunta do Exército, Marinha, Força Aérea e CIA, `ultra-secreta`, entrou em ação sob o comando do General-de-Divisão Breitweiser, da Força Aérea. A finalidade dessa força-tarefa parece que era a de acompanhar e coordenar a logística de `Brother Sam` " (pg. 104 a 106).


"Solicitações do Brasil

Um grupo naval chefiado pelo Almirante Levi Reis estabeleceu um posto de comando na praia de Copacabana na manhã de 1º de abril. Ele estava tentando providenciar para que três destróieres operassem ao largo do Rio de Janeiro e um submarino operasse ao largo de Santos como parte da coordenação contra Goulart. Levi Reis perguntou ao chefe da Missão Naval americana ‘se e quando os Estados Unidos estariam em condições de fornecer combustível para submarinos’.
Ás 10 horas da manhã de 1º de abril, altos funcionários norte-americanos em Washington consideravam os efeitos políticos do apoio aberto dos Estados Unidos ao golpe e perguntavam à Embaixada do Brasil se ‘o impulso continuaria do lado anti-Goulart sem incentivo oculto ou ostensivo de nossa parte’. A preocupação dos estrategistas norte-americanos parece que não era o cabimento do envolvimento dos Estados Unidos nos assuntos internos do Brasil, mas se a indicação aberta do apoio americano ‘poderia favorecer Goulart neste momento’. Gordon respondeu: ‘O impulso claramente pegou e nestas horas não precisa de incentivo especial de nossa parte... Neste momento, a indicação aberta de nosso apoio seria um erro político que iria favorecer Goulart` " (pg. 106).


"As informações dos Estados Unidos

As decisões dos Estados Unidos se baseavam em informações preciosas e oportunas fornecidas por fontes excelentes. Uma fonte não-revelada na agência telegráfica informou à Embaixada no Rio quando as tropas do Segundo Exército atravessaram a fronteira São Paulo/Rio na manhã de 1º de abril. Houve duas manifestações naquela tarde no centro do Rio, e observadores faziam o circuito entre essas aglomerações e a Embaixada, mantendo a equipe informada. Vernon Walters procurou encontar-se com Castelo Branco ou alguém de sua equipe às 2 horas de 1º de abril e outra vez na manhã de 2 de abril.
O apoio a Goulart foi desorganizado e ineficaz. Greves foram convocadas, mas não consumadas. A resistência careceu de planejamento coerente e liderança forte. À 1 hora da tarde de 1º de abril, o Presidente Goulart partiu de avião do Rio para Brasília. Em vez de assumir uma posição planejada em Brasília, Goulart prosseguiu viagem para o Rio Grande do Sul naquela noite" (pg. 107).


"Os Estados Unidos Preparam-se para Fornecer Resistência

Ás 5,30 da tarde, Gordon manda um teletipo para o Departamento de Estado: `Acreditamos que está tudo terminado, com a rebelião democrática 95% vitoriosa`. Ele frisou que poderia ainda haver alguma contenda civil e que `começamos o trabalho de equipe para as possíveis necessidades de ajuda à segurança interna, estabilização financeira, etc.` Washington respondeu: `Tivemos um grupo de trabalho especial aqui ocupando-se durante vários dias de assistência econômica e financeira, auxílio de emergência, etc., e estamos preparados para agir prontamente de acordo com as suas recomendações`. Depois dessa conferência pelo teletipo, o Subsecretário Ball encontrou-se com o Presidente Johnson para transmitir-lhe as boas novas.
O apoio militar ostensivo dos Estados Unidos para a derrubada de Goulart logo se tornou desnecessário. Gordon cabografou a Washington, enviando um extenso relato da situação à 1 hora da manhã do dia 2 de abril, no qual descreveu as forças dos aparentes vencedores e os poucos focos de resistência restantes. Ao considerar as possíveis reações dos Estados Unidos, ele frisou que `enquanto não for assegurado o controle democrático das refinarias, não se pode excluir a possível necessidade de produtos petrolíferos`. Isso significava que os navios-tanques carregados de POL deviam continuar a caminho do Brasil. Gordon não cancelou de imediato o embarque pendente de 100 toneltadas de armas e munições dos Estados Unidos, porque, explicou ele, `enquanto a situação do Terceiro Exército não estiver claramente sob controle,... não podemos excluir por completo um possível pedido de material bélico`. Gordon focalizou as prováveis repercussões econômicas do golpe e comunicou a Washington que acreditava que a situação podia `requerer alguns fornecimentos de emergência, tais como alimentação, material de segurança pública, POL`
(...)
A 2 de abril, às 4 horas da tarde, Gordon comunicou a Washington que ‘acabara de receber confirmação de Castelo Branco de que cessara toda a resistência em Porto Alegre, e as forças democráticas agora controlavam inteiramente o Rio Grande do Sul. Isso elimina o último foco de resistência militar’.
Na mesma tarde, 200.000 pessoas reuniram-se no centro do Rio para a passeata da vitória do grupo ‘Marcha da Família com Deus pela Liberdade’. Gordon descreveu a euforia da multidão agitando bandeiras brasileiras e cartazes anticomunistas, cantando o hino nacional e atirando confete. Acrescentou pesarosamente que `a única nota triste era a participação obviamente limitada das classes baixas na marcha`.
(...)
Na noite de 2 de abril, o Secretário-Assistente Mann descreveu para Gordon o pensamento predominante no Departamento de Estado com respeito à assistência dos EUA ao Brasil, a qual, de acordo com Mann, teria dois objetivos: 1) ajudar e apoiar o novo regime, e 2) incentivar `um programa razoável de desenvolvimento e estabilização, apoiado pelos recursos totais do mundo livre, inclusive os Estados Unidos`. Mann explicou que, a fim de conseguir o apoio do Congresso dos Estados Unidos ou de agências internacionais, `será necessário induzir as autoridades brasileiras a elaborar um programa de desenvolvimento econômico e estabilidade financeira`.
(...)
A 2 de abril, Lincoln Gordon enviou um cabograma, através do Departamento de Estado e da Casa Branca, a Carl Hayden, Presidente interino do Senado e membro da Comissão de Concessão de Verbas daquela Casa do Congresso, recomendando que `a maior consideração possível fosse dada a qualquer pedido (por parte do Governo brasileiro) de assistência econômica de emergência`. Gordon descreveu a `deposição de facto` de Goulart como `uma grande vitória para o mundo livre`, sem a qual o resultado poderia ter sido uma `perda total para o Ocidente de todas as repúblicas sul-americanas`. Afirmou que a mudança de Governo deveria `criar um clima muito mais favorável aos investimentos privados` e à Aliança para o Progresso. Frisando que a Agência Norte-Americana para o Desenvolvimento Internacional (USAID) fora importante para a vida econômica e política do Brasil, por `ter fortalecido o apoio aos ideais democráticos`, Gordon concluiu: `Acredito ser do interesse dos Estados Unidos apoiar e fortalecer tanto quanto possível o atual regime` " (pg. 108 a 111).


"Encerrando os Planos Preventivos Militares

Ao meio-dia de 2 de abril, o Embaixador Lincoln Gordon cogitava o cancelamento do envio da força-tarefa de porta-aviões para o Brasil. Na tarde seguinte, por ordens do Almirante Smith, essa operação foi cancelada com instruções para se `preservar o disfarce de treinamento Quick Kick (Rebate Rápido) com que se encobria toda a operação`. Smith sugeriu que, a 8 de abril, a força do porta-aviões realizasse um exercício de treinamento `ao largo de MHC`, retornando as unidades em seguida às operações normais. Na tarde de 3 de abril, o General O`Meara, no Panamá, sob cujo comando a Força-Tarefa Conjunta havia acompanhado todas as operações militares preventivas para o Brasil, recomendou que o `pacote de 110 toneladas de armas e munições continuasse guardado em McGuire, dependendo da determinação do Embaixador Lincoln Gordon quanto a se as forças militares brasileiras ou as forças policiais estaduais precisariam de auxílio inicial dos Estados Unidos`, e que o Comando Tático Aéreo, o Comando Estratégico Aéreo e as seções do Serviço de Transporte Aéreo Militar da operação `Brother Sam` fossem liberadas, mantendo-se `apenas a parte do movimento POL que o Embaixador considerar essencial para a situação atual`.
Os requisitos POL da operação `Brother Sam` continuaram em trânsito até sexta-feira ou sábado, 4 ou 5 de abril, quando o Embaixador Gordon entrou em contato com funcionários da Petrobrás para saber se o Brasil tinha necessidade de produtos petrolíferos extras. Os funcionários brasileiros agradeceram ao Embaixador, mas declinaram a oferta. Gordon comunicou a Washington que o POL não seria necessário, e esses suprimentos foram desviados para outro lugar.
Na noite de 3 de abril, uma ordem dos Chefes Conjuntos do Estado-Maior cancelou o transporte aéreo e o apoio de aviões de caça e petroleiros para o projeto de armas e munições da operação `Brother Sam`. O material bélico ficou armazenado até segunda-feira, 7 de abril, quando os Chefes Conjuntos do Estado-Maior mandaram que o pedido de armamentos aguardando embarque para o Brasil fosse cancelado e que as armas fossem devolvidas para o depósito normal.
Assim, a operação militar preventiva `Brother Sam` teve início e fim, sem que os Estados Unidos se tivessem envolvido fisicamente na derrubada de Goulart" (pg. 115 e 116).


Conclusão

Depois de ler algumas transcrições do livro da historiadora Parker, pode-se concordar com a autora que os EUA não tiveram participação física nos acontecimentos de 1964, embora tivessem dado início a uma operação fantasma, a “Brother Sam”, nunca efetivada, que seria de total apoio aos militares conspiradores, caso o Brasil entrasse em guerra civil. Na verdade – e isto não está escrito no livro da Sra. Parker -, o IPES, o IBAD, a CAMDE e as Forças Armadas formaram a base quadrangular decisiva para o desencadeamento da Contra-revolução de 31 de março de 1964. O mais que se diz por aí é mitologia propalada pelas esquerdas, especialmente as radicais, de sentimento antiamericano, amarguradas até hoje por não terem transformado o Brasil numa Cuba de dimensões continentais.


Notas:

POL significa petróleo, óleo e lubrificantes. O general Vernon Walters era o Adido de Defesa à Embaixada norte-americana no Brasil, e havia participado com Castelo Branco da campanha na Itália durante a II Guerra Mundial. Lincoln Gordon era o Embaixador americano no Brasil. Thomas Mann era o Secretário-Assistente de Estado para Negócios Interamericanos ("Johnson delegou publicamente a Mann autoridade excepcional sobre a política norte-americana para a América Latina, afirmando que Mann seria seu `único porta-voz` " (pg. 78).

CAMDE - A Campanha da Mulher pela Democracia (CAMDE) foi criada pouco antes das eleições de 1962, sob orientação de Leovigildo Balestieri (vigário franciscano de Ipanema, Rio de Janeiro), Glycon de Paiva e o general Golbery do Couto e Silva. “Eles convincentemente argumentavam que o Exército fora minado pelo ‘vício do legalismo’, que só mudaria se ‘legitimado’ por alguma força civil, e que as mulheres da classe média e alta representavam o mais facilmente mobilizado e interessado grupo de civis” (P. Schmitter, in “Interest, Conflict and Political Change in Brazil”, Stanford, California University Press, 1971, pg. 447). A CAMDE era uma organização feminina anticomunista, promoveu a “Marcha da Família com Deus pela Liberdade”, no dia 19 de março de 1964, em São Paulo (19 de março, Dia de São José, Padroeiro da Família), reunindo 500.000 pessoas, protesto que exigia o fim da balbúrdia e da carestia durante o Governo Goulart, e que antecedeu à revolução de 31 Mar 1964. No dia 2 de abril, a CAMDE reuniu 1 milhão de manifestantes no Rio de Janeiro para agradecer a interferência dos militares nos destinos do país, ocasião em que Aurélia Molina Bastos encerrou seu discurso dizendo: “Nós louvamos, nós bendizemos, nós glorificamos a Deus e o soldado do Brasil”.
As mulheres do CAMDE de Minas Gerais ofereceram a Castelo Branco, ainda antes de sua eleição, uma nova faixa presidencial, para que não usasse a tradicional, “já conspurcada pelos maus presidentes que o precederam” (O Estado de S. Paulo, 12/04/1964). Outras organizações femininas e grupos católicos atuantes em 1964, além da CAMDE, foram: Liga de Mulheres Democráticas (LIMDE), (MG); União Cívica Feminina (UCF), organizada em 1962 (SP); Campanha para Educação Cívica (CEC); Movimento de Arregimentação Feminina (MAF), teve início em 1954, foi liderado por Antonieta Pellegrini, irmã de Júlio de Mesquita Filho, proprietário de “O Estado de S. Paulo”; Liga Independente para a Liberdade, dirigida por Maria Pacheco Chaves; Movimento Familiar Cristão (MFC); Confederação das Famílias Cristãs (CFC); Liga Cristã contra o Comunismo; Cruzada do Rosário em Família (CRF); Legião de Defesa Social; Cruzada Democrática Feminina do Recife (CDFR); Ação Democrática Feminina (ADF), Porto Alegre, RS.

IBAD – Instituto Brasileiro de Ação Democrática: era uma organização anticomunista fundada em maio de 1959 por Ivan Hasslocher. Ao lado dele, jovens empresários fariam parte desta organização e da sua entidade-irmã, o IPES.

IPES - Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais: fundado em 1961 no Rio de Janeiro pelo coronel Golbery e um grupo de empresários anticomunistas, dispostos a readequar e a reformular o Estado brasileiro, hoje está extinto. Tinha por objetivo criar barreiras intelectuais contra a propagação das idéias marxistas durante o Governo de João Goulart. Promovia Estudos de Problemas Brasileiros para os Governos Militares pós-1964. O IPES, o IBAD, a CAMDE e as Forças Armadas formaram a base quadrangular decisiva para o desencadeamento da Contra-revolução de 31 de março de 1964, contra Jango, em sua política de implantar a “República Sindicalista” no Brasil. O IPES passou a existir oficialmente no dia 29 Nov 1961 (Jânio Quadros havia renunciado em agosto do mesmo ano). O lançamento do IPES foi recebido favoravelmente por diversos órgãos da imprensa, como o Jornal do Brasil, O Globo, O Correio da Manhã e Última Hora. Contou com a aprovação do Arcebispo do Rio de Janeiro, Dom Jayme de Barros Câmara. Além do Rio e de São Paulo, o IPES rapidamente se expandiu até Porto Alegre, Santos, Belo Horizonte, Curitiba, Manaus e outros centos menores. O IPES foi formado pelo trabalho do empresário de origem americana, Gilbert Huber Jr., do empresário multinacional Antônio Gallotti, dos empresários Glycon de Paiva, José Garrido Torres, Augusto Trajano Azevedo Antunes, além de serviços especiais de oficiais da reserva, como o general Golbery do Couto e Silva. Sandra Cavalcanti era uma das mais famosas conferencistas do IPES. As sementes do IPES (assim como do IBAD e do CONCLAP) foram lançadas no final do Governo JK, cujos excessos inflacionários geraram descontentamento entre os membros das classes produtoras do país, e durante a Presidência de Jânio Quadros, em cujo zelo moralista eles depositaram grandes esperanças. O IPES produziu em torno de 8 filmes, para alertar os desmandos do Governo Goulart, como a ameaça comunista; os cineastas eram Jean Mazon e Carlos Niemeyer. Um escritor de peso do IPES foi José Rubem Fonseca, autor de “Feliz Ano Novo”; segundo Fonseca, o “IPES buscava mobilizar a opinião pública no sentido do fortalecimento dos valores democráticos” (Del Nero in A Grande Mentira). O IPES participou também de operações internacionais, que ajudaram a derrubada de Salvador Allende, no Chile, e do general Juan Torres, na Bolívia (em Ago 1971, o general Hugo Banzer tomou o poder). Entidades congêneres do “Complexo IPES/IBAD”: 1) México: Centro de Estudios Monetarios Latinoamericanos – CEMLA; Centro Nacional de Estudios Sociales - CNES; Instituto de Investigaciones Sociales y Económicas – IISE; 2) Guatemala: Centro de Estudios Económico-Sociales – CEES; 3) Colômbia: Centro de Estudios y Acción Social – CEAS; 4) Equador: Centro de Estudios y Reformas Económico-Sociales – CERES; 5) Chile: Instituto Privado de Investigaciones Económico-Sociales – IPIES; 6) Brasil: Sociedade de Estudos Interamericanos – SEI; Fundação Aliança para o Progresso; 7) Argentina: Foro de la Libre Empresa; Acción Coordinadora de las Instituciones Empresariales Libres. “Em 64, quando Castelo Branco organizou o Governo, a maioria dos cargos foi entregue a quem tinha ensinado ou feito cursinho no IPES. A começar por Golbery e Roberto Campos” (Sebastião Nery, in Os filhos de 64, Jornal Popular, Belém, PA, 6 Out 1995).