quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

O mês sagrado do ramadã

Félix Maier

23/10/2008

Com 30 dias de duração, o nono mês do calendário árabe, o ramadã, é o mês das preces e do jejum. O fiel muçulmano, durante o dia, fica proibido de comer ou ingerir qualquer tipo de líquido, a não ser por ordem médica. O crente deve também se portar de modo mais pacato, conservar os olhos baixos durante o dia, para não "sofrer tentação" ao avistar uma mulher. A relação sexual também é proibida durante o dia. Outros pecados que devem ser evitados nesse mês são a luta e a perda da calma. A guerra também deve ser evitada, como diz o Corão, embora ela possa ser feita por uma "causa justa", como foi a Guerra do Ramadã, de 1973, contra Israel...

O jejum pode ser quebrado com o anúncio dos alto-falantes nas mesquitas, ao anoitecer, ou então o fiel deve saber pelos jornais, rádio ou TV quando está apto a fazer a primeira refeição do dia, o ifthar. O horário, dia após dia, varia um pouco.

Como o calendário árabe é lunar, o início do ramadã é sempre uma incógnita. Pode ser num dia ou somente em outro. Depende da acuidade visual do religioso para observar a ro'ya, ou seja, a lua no início da fase do quarto crescente. Ao menos é isso que acontece em países mais conservadores, como a Arábia Saudita. No Egito, ficávamos aguardando, até próximo do início do ramadã, para que informassem a data precisa, embora os astrônomos, com muita antecedência, pudessem prever o aparecimento da lua quarto crescente.

No Cairo, uma característica única dentre os países muçulmanos, o anúncio do fim e do início do jejum, nos dias do ramadã, é feito com o disparo de um velho canhão alemão, que pode ser ouvido em muitos pontos da cidade. O canhão encontra-se numa colina perto da Cidadela de Saladino.

Como o descrito no jornal Al-Ahram nº 3 de 14 Mar 91, a tradição começou em 1811, por puro acidente. O canhão era tão velho que o Pasha (Governador) Muhammad Áli decidiu parar de usá-lo e fazer dele um monumento. Enquanto os soldados estavam limpando o canhão, este acidentalmente disparou um tiro. Os egípcios ficaram muito felizes, pois pensaram que era o sinal dado para a quebra do jejum, à tardinha. Os grandes sheikhs (xeques) foram agradecer ao Governador e este decidiu continuar a disparar o canhão no início e no fim do jejum. Desde então, isto veio a se estabelecer como tradição. O canhão também dispara em dias de festas e feriados nacionais.

O ifthar é a primeira refeição à noitinha, após o jejum. Os mais pobres podem se servir em mesas que são arrumadas junto a muitas ruas da cidade. Cena interessante é você observar aquele povo humilde sentado à mesa, com mais de uma hora de antecedência, para garantir o lugar, com os talheres prontos para entrar em ação, como se fosse uma competição, e só iniciando a refeição com a devida autorização dos alto-falantes das mesquitas.

Um ifthar tradicional começa com um prato de tâmaras embebidas em água ou leite, como o prescrito pela sunna (ensino religioso). Muitas famílias irão incluir no menu um prato de fuul (espécie de feijão com limão e óleo de oliva), assim como uma refeição normal que pode conter sopa, carne, ave, peixe e uma grande variedade de legumes.

Se durante o dia a barriga ficou a perigo, à noite, após o ifthar, outras refeições são feitas, até alta madrugada. É a época em que mais se come no Egito - ao menos entre aquelas pessoas das classes mais altas - e muitos religiosos criticam isso, justamente por ser o mês do jejum. Açúcar e farinha de trigo você tem que fazer estoque em casa, para se prevenir contra a falta desses produtos em quase todos os armazéns da cidade.

O sohour, às 3 horas da manhã, é normalmente a última refeição, geralmente uma comida ligeira à base de iogurte e frutas, depois do que as pessoas vão dormir.

O brasileiro Zagalo, quando dirigia a seleção de futebol dos Emirados Árabes Unidos, teve um problema bastante difícil de resolver, ao assumir o trabalho na preparação para a Copa do Mundo na Itália, em 1990. Os treinos durante o ramadã só podiam ser feitos à noite, pois, com a barriga vazia, os jogadores de modo algum se prontificavam a obedecer seu treinador...

Crianças do pré-escolar acreditam que o ramadã é uma pessoa, como Papai Noel, que virá trazer as lanternas e os doces, além dos presentes que são comuns nessa época.

A fanus (lanterna) é um costume unicamente egípcio e data da época dos fatímidas. Quando Al-Muz Lidin Allah Al-Fatimi transferiu a capital muçulmana para o Cairo, na sua chegada, à noite, os cairenses saíram às ruas para recebê-lo com lampiões coloridos para iluminar as ruas que o levaram até seu palácio.

No início, a lanterna era feita de vidro colorido e vela, com formatos hexagonal ou octogonal. Hoje, as lanternas utilizam pilhas elétricas e pequenas lâmpadas para emitir luz através do material plástico. Durante o ramadã, pudemos observar os efeitos especiais dessas lanternas, com suas luzes coloridas em todos os pontos do Cairo, nas lojas, nas ruas, nas casas.

As crianças ficam impacientes em começar a jejuar e participar dos rituais do ramadã. Embora a idade "oficial" seja de 9 anos, muitas crianças de 7 anos procuram imitar seus pais durante alguns dias. Muitos estrangeiros residentes no Cairo também jejuam alguns dias, durante o ramadã, independentemente de sua religião. Que é, sem dúvida, bastante saudável para o corpo.

Nas ruas e nos canteiros das avenidas são armadas muitas tendas, emolduradas com uma infinidade de pontos de luz para iluminar a noite do ramadã. Milhares de lâmpadas caem em cascatas do alto de alguns prédios, mormente hotéis. Árvores também são enfeitadas com lâmpadas multicoloridas, apresentando um espetáculo típico do nosso Natal. O ramadã é uma festa de som, luz e calor humano.

Na época do ramadã, durante o dia, o movimento dos veículos diminui muito depois das 14 horas. Porém, após a primeira refeição do muçulmano, à noitinha, a cidade do Cairo se transforma completamente. Todo mundo combina em sair ao mesmo tempo para as ruas e o leitor não pode imaginar o pandemônio que fica o trânsito da cidade.

Uma noite, durante o ramadã, fomos levar um amigo paranaense, Anwar El Tassa, até sua residência, no Khan Al-Khalili. Em um trecho que não se leva normalmente mais de 10 minutos de carro, ficamos presos no trânsito por mais de três horas.

Mas ninguém se incomoda com isso: todo mundo enche o carro, a família toda, cantando, a música no toca-fitas brigando com o volume das buzinas, e sai satisfeito da vida, enfrentando o trânsito infernal, até alta madrugada. Os mais pobres fazem piquenique nas praças e canteiros das avenidas, com sacolas de comida, no estilo "farofeiro" das praias brasileiras. Há muitos vendedores de milho assado na brasa, shai (chá) gelado, pipoca. As crianças andam no lombo de burrinhos. Ou correm atrás da bola.

O egípcio é fanático por futebol. O leitor não acredita o carnaval que fizeram, em 1990, quando conseguiram dois simples empates na Copa da Itália. Foi um buzinaço fenomenal que avançou madrugada adentro. Eles adoram o futebol brasileiro. Imagino que tenham vibrado muito com a nossa conquista do tetra.

No meio da confusão toda de automóveis, pessoas, burrinhos, durante o ramadã pode-se observar, em todos os cantos da cidade, muitas charretes, parecidas com aquela que a ex-ministra Zélia Cardoso usou como táxi em Nova Iorque. No Egito, quando víamos uma dessas charretes (hantur, em árabe), a sugestão era imediata: "Vamos andar no táxi da Zélia?"

O horário normal de trabalho, em todos os setores, é mais ou menos de 9:30 até às 15 horas. Durante o ramadã, o horário de trabalho encurta ainda mais, de 11 às 14 horas. A tarde é sempre utilizada para a sesta, tudo pára, nada funciona. O relógio biológico do egípcio é diferente do nosso: à tarde todos dormem, saem às ruas à noite e só dormem de madrugada, mesmo que não seja época do ramadã. O ritmo de trabalho normal do egípcio é muito lento. Durante o ramadã fica mais lento ainda. De certa forma, eles têm razão em não trabalhar muito. No verão, o clima é muito seco e quente, de torrar os miolos. Eu quero ver o leitor pegar no batente, no pesado mesmo, durante mais de 4 horas, com uma temperatura que, como medimos no Cairo, ultrapassava os 45 graus centígrados. O general Schwarzkopf não foi nada delicado ao chamar os soldados egípcios de "tartarugas" nas operações militares que tiraram Saddam Hussein do Kuwait.

No final do mês do ramadã há a festa do Aid Al-Fitr, o Pequeno Bairã, 4 dias de feriado que servem como coroamento do sagrado mês do jejum e das orações.


Obs.: Texto extraído de meu livro EGITO - Uma viagem ao berço de nossa civilização, Thesaurus, Brasília, 1995, fruto de meu trabalho na Embaixada do Brasil no Cairo, de 1990 a 92.