segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

O darwinismo de Roberto Justus

Félix Maier

29/09/2006

Encerrou-se na noite de 26 de setembro do ano em curso o “Aprendiz 3”, programa interativo da TV Record, apresentado pelo empresário brasileiro Roberto Justus. Nos dois programas anteriores, os dois vencedores foram contratados pelas empresas do próprio Justus, ao passo que o vencedor da 3ª edição, o gaúcho Anselmo Martini, irá trabalhar na Wunderman, agência de marketing direto sediada em Nova York, com salário anual de R$ 500 mil.

Não assisti o primeiro programa, quando Viviane Ventura, hoje namorada de Antônio Fagundes, foi a escolhida. Porém, não perdi nenhum episódio do “Aprendiz 2” e do “Aprendiz 3”, por tratar-se de um programa educativo, certamente do interesse de milhares de acadêmicos recém-formados, ávidos por entrar no mercado de trabalho. Ou mesmo de profissionais já calejados em trabalhar nas selvas humanas, que são as metrópoles do Brasil, em busca de novos desafios. Além disso, foi uma ótima ocasião para comprovar a teoria de Darwin, uma verdadeira guerra de sobrevivência, que é o mundo dos negócios, onde sobrevivem apenas o mais apto e o mais esperto.

Os programas de Justus foram inspirados no reality show que o mega-empresário Donald Trump apresentou na TV norte-americana. A “base” dos modernos guerreiros da selva darwinista foi o Hotel Hilton, de São Paulo, de onde os participantes partiam para as diversas “guerras”. Duas coisas me chamaram a atenção: a desenvoltura de Justus frente a uma câmara de TV e a falta de preparo intelectual de grande parte dos participantes. Ao término do “Aprendiz 3”, Justus afirmou que a TV Record irá apresentar outro programa, dirigido também por ele, no qual o candidato escolhido não trabalhará mais em uma de suas empresas, mas será seu sócio. Um prêmio merecido a Justus, pelo sucesso alcançado na televisão, quando demonstrou simpatia, grande cultura, inteligência privilegiada e uma língua afiada, apresentando pronta resposta para todas as situações. Enfim, Justus é “rápido no gatilho”, item imprescindível para quem deseja ser um bom apresentador de TV.

Por outro lado, os “aprendizes” decepcionaram bastante. Não é concebível que um acadêmico fale “seje” em uma apresentação, dando a entender que existe o verbo “sejar”. Afirmar que a Revolução Francesa dá início à era moderna foi outro erro grave cometido pelos “aprendizes”. O correto é a Tomada de Constantinopla, ocorrida em 1453. Porém, me surpreendi quando um dos participantes afirmou que o escritor Joseph Conrad era polonês. Algo quase tão difícil quanto saber que George Eliot é na verdade uma escritora, pseudônimo de Mary Anne Evans. Tá bem, não dá mesmo para lembrar qual o significado da sigla LASER. Porém, não dá para acreditar que a sigla Unesco signifique “União Nacional das Escolas”, como respondeu o líder de um dos grupos participantes, depois de consulta entre eles, durante o Quiz do “Aprendiz 3”. O episódio me fez lembrar dos universitários que participavam do “Show do milhão”, de Sílvio Santos, quando muitos dos candidatos do milhão de reais foram mais cedo para casa, de mão abanando, por conta da ignorância dos “universi-otários”, que mais serviam para atrapalhar do que para ajudar.

Leia texto completo em http://www.usinadeletras.com.br/exibelotexto.php?cod=7658&cat=Ensaios&vinda=S