sábado, 3 de janeiro de 2009

A língua de pau do Informex

Félix Maier

26/04/2004

Nos "termos de pau" em que foi escrito, melhor fora se nenhum Informex tivesse sido distribuído às unidades do Exército por ocasião do aniversário da Intentona Comunista.


“INFORMEX NR 053 - 27 DE NOVEMBRO DE 2004

DISTRIBUIÇÃO:

TODAS AS ORGANIZAÇÕES MILITARES

DIFUSÃO: TODOS OS MILITARES

ASSUNTO: ACONTECIMENTOS DE 27 DE NOVEMBRO DE 1935


Incumbiu-me o Sr Comandante do Exército de transmitir à Força o que se segue:

Ao lançar os olhos para o que hoje constitui História, é preciso analisar os fatos com isenção, manter a ótica ajustada à conjuntura da época e às nuances do ocorrido naquele contexto histórico. Não podemos esquecer que só a perspectiva do tempo confere a acontecimentos e pessoas suas reais proporções, pelo distanciamento das paixões e interesses que sempre acompanham momentos como aquele.

Se agora recordamos os dias difíceis de novembro de 1935, não é para estimular ressentimentos. Relembramos esta data para homenagear a memória dos soldados que tombaram no cumprimento do dever.

Hoje, ultrapassados os conflitos ideológicos característicos do Século XX, e que tantos males causaram à Humanidade, celebramos em nosso País um tempo novo, de entendimento e reconciliação. Todas as forças vivas do Brasil unem-se para que os objetivos maiores da sociedade sejam alcançados.

À Instituição Exército cabe hoje, como no passado, atuar de forma integrada à sociedade brasileira - da qual, com orgulho, é parte ponderável - para a conquista dos objetivos longamente perseguidos por toda a Nação. Já como indivíduos, soldados e famílias de soldados, cidadãos que somos, são também nossos os anseios de todos os brasileiros. A farda não abafa o cidadão no peito do soldado, no dizer magistral do Marechal Osório.

Animados desse espírito, vemos a superação de desavenças passadas a iluminar a convivência nacional, de forma a continuarmos caminhando, ombro a ombro, rumo à construção de um amanhã próspero e feliz.

Gen Div ANTÔNIO GABRIEL ESPER

Chefe do CCOMSEX

INFORMAR E ESCLARECER É DEVER DO COMANDO”


***


Comentário

Félix Maier

Analisemos, rapidamente, algumas "palavras de pau"[*] utilizadas pelo general Esper, ex-adido militar brasileiro no Irã, na insípida nota de pau emitida em nome do Exército:

1) Intentona Comunista, na linguagem de pau do Chefe do CComSEx, virou "Acontecimentos". Assim, o general livrou-se de usar as duas macabras palavras que ensangüentaram o Brasil em 1935, quando traidores brasileiros, como Luiz Carlos Prestes e Apolônio de Carvalho, com o prestimoso auxílio do "ouro de Moscou", causaram a morte de 33 militares e mais de 1000 civis. "Intentona", segundo o Aurélio, é 1. "intento louco, plano insensato". 2. "conluio e/ou tentativa de motim ou revolta". Quanto à palavra "comunista", nem é preciso definir o que sempre pretendeu o partido do atual presidente da Câmara dos Deputados, eleito pela Frente do Mensalão.

2) "Ultrapassados os conflitos ideológicos do século XX": talvez isso seja verdade para alguns partidos de esquerda europeus, não para os daqui, da Terra dos Papagaios. O PCdoB, o PSTU e o PSol ainda vivem no século XX, seguindo tipos cavernosos como Fidel Castro e Hugo Chávez. E o que prega o messetê, senão a criação de sovietes em todo o território rural brasileiro? Só o general Esper e meia dúzia de seus oficiais é que ainda acreditam que os conflitos ideológicos do século passado estão "ultrapassados".

3) "Tempo novo, de entendimento e reconciliação": para o lingüista de pau do Forte Apache, a campanha sistemática da mídia, infestada pelas esquerdas, contra as Forças Armadas, configura-se "entendimento e reconciliação". Não que o Exército esteja errado em promover a "reconciliação" com a sociedade brasileira. O Exército sempre teve esse espírito democrático, desde Caxias e suas campanhas pacifistas. A Força Terrestre não se comporta de modo diferente depois do governo dos militares (1964 a 1985). O problema é que o general Esper se esqueceu de avisar isso aos genoínos e aos zés dirceus que ainda sonham em implantar no Brasil o "paraíso cubano". E se esqueceu de dizer a Lula que ele chorou a morte de um facínora, Apolônio de Carvalho, um dos assassinos que promoveram o levante de 1935. Não pode haver "entendimento" nem "reconciliação" da Nação se o próprio comandante-em-chefe das Forças Armadas apóia traidores, em nítida demonstração de repúdio às ações dos militares que combateram no passado a peste vermelha.

4) …"vemos a superação de desavenças passadas": expressão de pau do general Esper equivalente a "tempo novo, de entendimento e reconciliação". Essa "superação" pode ser comprovada nos mais novos projetos do governo Lula:

a) A abertura dos arquivos militares, até dezembro de 2005, porém com restrições, para não "constranger" pessoas citadas nos dossiês dos serviços de informações, como afirmou a sargentona da Casa Civil, a antiga guerrilheira da VAR Palmares, Dilma Roussef. Tradução: tudo o que possa denegrir as Forças Armadas será de domínio público; tudo o que possa denegrir a imagem dos terroristas será devidamente censurado, escondido da população. Quem viver, verá.

b) Para 2006, está prevista a construção do "Memorial da Intolerância", em Brasília, com verba oriunda de estatais, como a Caixa Econômica. Obviamente, tal "memorial" não irá trazer a público os crimes cometidos pelo PCB de Prestes, pela VPR de Lamarca, pelo MR-8 de Gabeira, pela ANL de Marighela, a tortura e morte do tenente da PM paulista, Alberto Mendes Júnior, a morte do soldado Mário Kozel Filho, explodido numa guarita durante o serviço, e tantos outros crimes de grupos terroristas atuantes nos "anos de dinamite" das décadas de 1960 e 70. Apenas os "crimes" e as "torturas" dos órgãos de segurança que combateram a peste vermelha serão apresentados em tal "memorial" que, certamente, passará a ser chamado de "Memorial da Ditadura".

Prezado general Esper: diz um provérbio árabe que, para não aceitar briga com o adversário e não levar um soco no estômago, deve-se dar as costas e ir embora. O Exército - e por extensão as Forças Armadas - vem obedecendo há muito tempo esse preceito árabe. Ocorre que seus adversários, inimigos cada vez mais ferozes, não se dando por vencidos, passaram a dar pontapés na bunda do Exército, cada vez com mais freqüência, sem nenhuma reação da vítima. Pelo visto, o Exército - ao menos a alta oficialidade, hoje "orgânica" a Lula - até já gosta dos pontapés, está pedindo que lhe chutem cada vez mais o traseiro.

General Esper: as palavras do Informex seriam irretocáveis se a linguagem tivesse sido simples e direta, sem eufemismos e circunlóquios vazios. Bastava dizer ao jovem soldado que ingressou este ano no Exército que em 1935 os comunistas assaltaram quartéis, mataram friamente companheiros fardados, alguns enquanto dormiam, para tentar implantar um governo marxista-stalinista no Brasil. Nos termos de pau em que foi escrito, melhor fora se nenhum Informex tivesse sido distribuído às unidades do Exército.

Notas:

[*] Para saber mais sobre o assunto acesse o artigo Língua de Pau (http://www.midiasemmascara.org/?p=2324).

Obs.: Texto publicado no Mídia Sem Máscara e outros sites, como Usina de Letras. Pois é, até hoje, neste glorioso Annus Lulae 7 (gregoriano 2009), não foram abertos os arquivos da ditamole. Por que será? Ainda bem que não construíram, ao menos por enquanto, o mausoléu dos comunas, com o dinheiro dos contribuintes (F. Maier).