quinta-feira, 1 de janeiro de 2009

Guia Prático da Nova Ortografia, em vigor a partir de 1/1/2009


Saiba o que mudou na ortografia brasileira

por Douglas Tufano

Professor e autor de livros didáticos de língua portuguesa

O objetivo deste guia é expor ao leitor, de maneira objetiva, as alterações introduzidas na ortografia da língua portuguesa pelo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa, assinado em Lisboa, em 16 de dezembro de 1990, por Portugal, Brasil, Angola, São Tomé e Príncipe, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique e, posteriormente, por Timor Leste.

No Brasil, o Acordo foi aprovado pelo Decreto Legislativo no. 54, de 18 de abril de 1995.

Esse Acordo é meramente ortográfico; portanto, restringe-se à língua escrita, não afetando nenhum aspecto da língua falada.

Ele não elimina todas as diferenças ortográficas observadas nos países que têm a língua portuguesa como idioma oficial, mas é um passo em direção à pretendida unificação ortográfica desses países.

Como o documento oficial do Acordo não é claro em vários aspectos, elaboramos um roteiro com o que foi possível estabelecer objetivamente sobre as novas regras.

Esperamos que este guia sirva de orientação básica para aqueles que desejam resolver rapidamente suas dúvidas sobre as mudanças introduzidas na ortografia brasileira, sem preocupação com questões teóricas.


Mudanças no alfabeto

O alfabeto passa a ter 26 letras. Foram reintroduzidas as letras k, w e y.

O alfabeto completo passa a ser: A B C D E F G H I J K L M N O P Q R S T U V W X Y Z

As letras k, w e y, que na verdade não tinham desaparecido da maioria dos dicionários da nossa língua, são usadas em várias situações. Por exemplo:

a) na escrita de símbolos de unidades de medida: km (quilômetro), kg (quilograma), W (watt);

Estas letras NÃO EXISTIAM nos dicionários da nossa língua, ATÉ PORQUE TEM LETRAS QUE FONETICAMENTE AS REPRESENTAM.

APENAS SE RESPEITAVAM AS NORMAS DO SISTEMA INTERNACIONAL DE MEDIDAS (SI), O QUE FACILITA A INTERPRETAÇÃO DE LEITURAS TÉCNICAS EM NÍVEL INTERNACIONAL.

“Evita” (não confundir com a PERON) a confusão de medidas como AS PROPICIADAS PELO sistema inglês, com seus: foot, yard, que só tem sentido prá eles, até porque o referencial de padrão deles.... bemmmmmm vamos economizar.

EU E MUITOS MAIS NO MUNDO NÃO FAZEMOS A MÍNIMA IDÉIA DO QUE REPRESENTEM ESSAS MEDIDAS, sendo obrigados a passar para o sistema internacional, onde, com base no SISTEMA MÉTRICO DECIMAL que DEMOCRATIZOU RACIONALMENTE AS MEDIDAS.

b) na escrita de palavras e nomes estrangeiros (e seus derivados): show, playboy, playground, windsurf, kung fu, yin, yang, William, kaiser, Kafka, kafkiano.

Quanto aos nomes, há que se respeitar as origens, mas por que em solo pátrio, ENTRETANTO, POR QUE ALGUÉM NA BAHIA (VIA DE REGRA), vai batizar um filho com o nome de WASHINGTON? NEWTON? WALTER, se nem na língua pátria conseguem pronunciar correto os nomes? Servilmente adotar nomenclaturas deles?

Se para os ingleses aquele acessório que utilizamos para ajudar no computador tem ou nome de "mouse" (portanto, rato, camundongo) em França, virou RATON! Espanha e Portugal seguiram a regra, bem como o tal do "file" virou `FICHEIRO" em terras lusas!


Trema

Não se usa mais o trema (¨), sinal colocado sobre a letra u para indicar que ela deve ser pronunciada nos grupos gue, gui, que, qui.

Como era
Como fica

agüentar
aguentar

Argüir
arguir

Bilíngüe
bilíngue

cinqüenta
cinquenta

delinqüente
delinquente

eloqüente
eloquente

ensangüentado
ensanguentado

eqüestre
equestre

freqüente
frequente

lingüeta
lingueta

Lingüiça
linguiça

qüinqüênio
quinquênio

sagüi
sagui

seqüência
sequência

seqüestro
sequestro

tranqüilo
tranquilo

Atenção: o trema permanece apenas nas palavras estrangeiras e em suas derivadas. Exemplos: Müller, mülleriano.

Não obstante, esse trema sempre me confundiu, mais uma vez se mostra o "servilismo" ....vamos respeitar a língua dos outros! COMO SE ISTO JÁ NÃO OCORRESSE!

Em França, a porra do trema sobre a letra (Ö), na logomarca do CITROEN, serve para que ele tenha exatamente essa pronúncia CITROEN, pois pela ortografia francesa, sem o trema , seria "Citroan"....

Eles podem diferenciar... nóis é resto tem que escrever como o prisidente intendi?


Mudanças nas regras de acentuação

[Certo estava o "velho louco", que me deu aulas de Mecânica Analítica, ao se negar escrever um livro, face às sucessivas mudanças que a língua já havia enfrentado - ele vivenciou 3 - se vivo fosse, espernearia com mais uma - e deve estar se revolvendo no túmulo, com a imbecilidade das mudanças que esta merda de acordo propiciou.

De agora em diante, terei eu dificuldades em saber onde há ou não acentuação. Provavelmente não acentuarei nada e quem quizer que coloque onde julgar conveniente]

1. Não se usa mais o acento dos ditongos abertos éi e ói das palavras paroxítonas (palavras que têm acento tônico na penúltima sílaba).

Como era
Como fica

alcalóide
alcaloide

alcatéia
alcateia

andróide
androide

apóia
(verbo apoiar) apoia

apóio
(verbo apoiar) apoio

asteróide
asteroide

bóia
boia

celulóide
celuloide

clarabóia
claraboia

colméia
colmeia

Coréia
Coreia

debilóide
debiloide

epopéia
epopeia

estóico
estoico

estréia
estreia

estréio (verbo estrear)
estreio

geléia
geleia

heróico
heroico

idéia
ideia

jibóia
jiboia

jóia
joia

odisséia
odisseia

paranóia
paranoia

paranóico
paranoico

platéia
plateia

tramóia
tramoia

Atenção: essa regra é válida somente para palavras paroxítonas.

Assim, continuam a ser acentuadas as palavras oxítonas terminadas em éis, éu, éus, ói, óis. Exemplos: papéis, herói, heróis, troféu, troféus.

2. Nas palavras paroxítonas, não se usa mais o acento no i e no u tônicos quando vierem depois de um ditongo.

Como era
Como fica

baiúca
baiuca

bocaiúva
bocaiuva

cauíla
cauila

feiúra
feiura

Atenção: se a palavra for oxítona e o i ou o u estiverem em posição final (ou seguidos de s), o acento permanece. Exemplos: tuiuiú, tuiuiús, Piauí.

3. Não se usa mais o acento das palavras terminadas em êem e ôo(s).

Como era
Como fica

abençôo
abençoo

crêem (verbo crer)
creem

dêem (verbo dar)
deem

dôo (verbo doar)
doo

enjôo
enjoo

lêem (verbo ler)
leem

magôo (verbo magoar)
magoo

perdôo (verbo perdoar)
perdoo

povôo (verbo povoar)
povoo

vêem (verbo ver)
veem

vôos
voos

zôo
zoo

4. Não se usa mais o acento que diferenciava os pares pára/para, péla(s)/pela(s), pêlo(s)/pelo(s), pólo(s)/polo(s) e pêra/pera.

Como era
Como fica

Ele pára o carro.
Ele para o carro.

Ele foi ao pólo Norte.
Ele foi ao polo Norte.

Ele gosta de jogar pólo.
Ele gosta de jogar polo.

Esse gato tem pêlos brancos.
Esse gato tem pelos brancos.

Comi uma pêra.
Comi uma pera.

Atenção:

- Permanece o acento diferencial em pôde/pode. Pôde é a forma do passado do verbo poder (pretérito perfeito do indicativo), na 3a pessoa do singular. Pode é a forma do presente do indicativo, na 3a pessoa do singular. Exemplo: Ontem, ele não pôde sair mais cedo, mas hoje ele pode.

- Permanece o acento diferencial em pôr/por. Pôr é verbo. Por é preposição. Exemplo: Vou pôr o livro na estante que foi feita por mim.

- Permanecem os acentos que diferenciam o singular do plural dos verbos ter e vir, assim como de seus derivados (manter, deter, reter, conter, convir, intervir, advir etc.). Exemplos:

Ele tem dois carros. / Eles têm dois carros.
Ele vem de Sorocaba. / Eles vêm de Sorocaba.
Ele mantém a palavra. / Eles mantêm a palavra.
Ele convém aos estudantes. / Eles convêm aos estudantes.
Ele detém o poder. / Eles detêm o poder.
Ele intervém em todas as aulas. / Eles intervêm em todas as aulas.

- É facultativo o uso do acento circunflexo para diferenciar as palavras forma/fôrma. Em alguns casos, o uso do acento deixa a frase mais clara. Veja este exemplo: Qual é a forma da fôrma do bolo?

5. Não se usa mais o acento agudo no u tônico das formas (tu) arguis, (ele) argui, (eles) arguem, do presente do indicativo dos verbos arguir e redarguir.

6. Há uma variação na pronúncia dos verbos terminados em guar, quar e quir, como aguar, averiguar, apaziguar, desaguar, enxaguar, obliquar, delinquir etc. Esses verbos admitem duas pronúncias em algumas formas do presente do indicativo, do presente do subjuntivo e também do imperativo. Veja:

a) se forem pronunciadas com a ou i tônicos, essas formas devem ser acentuadas. Exemplos:
verbo enxaguar: enxáguo, enxáguas, enxágua, enxáguam; enxágue, enxágues, enxáguem.
verbo delinquir: delínquo, delínques, delínque, delínquem; delínqua, delínquas, delínquam.

b) se forem pronunciadas com u tônico, essas formas deixam de ser acentuadas. Exemplos (a vogal sublinhada é tônica, isto é, deve ser pronunciada mais fortemente que as outras):
verbo enxaguar: enxaguo, enxaguas, enxagua, enxaguam; enxague, enxagues, enxaguem.
verbo delinquir: delinquo, delinques, delinque, delinquem; delinqua, delinquas, delinquam.
Atenção: no Brasil, a pronúncia mais corrente é a primeira, aquela com a e i tônicos.


Uso do hífen

Algumas regras do uso do hífen foram alteradas pelo novo Acordo. Mas, como se trata ainda de matéria controvertida em muitos aspectos, para facilitar a compreensão dos leitores, apresentamos um resumo das regras que orientam o uso do hífen com os prefixos mais comuns, assim como as novas orientações estabelecidas pelo Acordo.

As observações a seguir referem-se ao uso do hífen em palavras formadas por prefixos ou por elementos que podem funcionar como prefixos, como: aero, agro, além, ante, anti, aquém, arqui, auto, circum, co, contra, eletro, entre, ex, extra, geo, hidro, hiper, infra, inter, intra, macro, micro, mini, multi, neo, pan, pluri, proto, pós, pré, pró, pseudo, retro, semi, sobre, sub, super, supra, tele, ultra, vice etc.

1. Com prefixos, usa-se sempre o hífen diante de palavra iniciada por h.

Exemplos:

anti-higiênico
anti-histórico
co-herdeiro
macro-história
mini-hotel
proto-história
sobre-humano
super-homem
ultra-humano

Exceção: subumano (nesse caso, a palavra humano perde o h).


2. Não se usa o hífen quando o prefixo termina em vogal diferente da vogal com que se inicia o segundo elemento.

Exemplos:

aeroespacial
agroindustrial
anteontem
antiaéreo
antieducativo
autoaprendizagem
autoescola
autoestrada
autoinstrução
coautor
coedição
extraescolar
infraestrutura
plurianual
semiaberto
semianalfabeto
semiesférico
semiopaco

Exceção: o prefixo co aglutina-se em geral com o segundo elemento, mesmo quando este se inicia por o: coobrigar, coobrigação, coordenar, cooperar, cooperação, cooptar, coocupante etc.

3. Não se usa o hífen quando o prefixo termina em vogal e o segundo elemento começa por consoante diferente de r ou s.

Exemplos:

anteprojeto
antipedagógico
autopeça
autoproteção
coprodução
geopolítica
microcomputador
pseudoprofessor
semicírculo
semideus
seminovo
ultramoderno

Atenção: com o prefixo vice, usa-se sempre o hífen. Exemplos: vice-rei, vice-almirante etc.

NÃO ESQUECER O VICE-PRESIDENTE, VICE-PREFEITO, VICE-GOVERNADOR......"

4. Não se usa o hífen quando o prefixo termina em vogal e o segundo elemento começa por r ou s. Nesse caso, duplicam-se essas letras.

Exemplos:

antirrábico
antirracismo
antirreligioso
antirrugas
antissocial
biorritmo
contrarregra
contrassenso
cosseno
infrassom
microssistema
minissaia
multissecular
neorrealismo
neossimbolista
semirreta
ultrarresistente
ultrassom

5. Quando o prefixo termina por vogal, usa-se o hífen se o segundo elemento começar pela mesma vogal.

Exemplos:

anti-ibérico
anti-imperialista
anti-inflacionário
anti-inflamatório
auto-observação
contra-almirante
contra-atacar
contra-ataque
micro-ondas
micro-ônibus
semi-internato
semi-interno

6. Quando o prefixo termina por consoante, usa-se o hífen se o segundo elemento começar pela mesma consoante.

Exemplos:

hiper-requintado
inter-racial
inter-regional
sub-bibliotecário
super-racista
super-reacionário
super-resistente
super-romântico

Atenção:

- Nos demais casos não se usa o hífen.

Exemplos: hipermercado, intermunicipal, superinteressante, superproteção.

- Com o prefixo sub, usa-se o hífen também diante de palavra iniciada por r: sub-região, sub-raça etc.

- Com os prefixos circum e pan, usa-se o hífen diante de palavra iniciada por m, n e vogal: circum-navegação, pan-americano etc.

7. Quando o prefixo termina por consoante, não se usa o hífen se o segundo elemento começar por vogal.

Exemplos:

hiperacidez
hiperativo
interescolar
interestadual
interestelar
interestudantil
superamigo
superaquecimento
supereconômico
superexigente
superinteressante
superotimismo

8. Com os prefixos ex, sem, além, aquém, recém, pós, pré, pró, usa-se sempre o hífen.

Exemplos:

além-mar
além-túmulo
aquém-mar
ex-aluno
ex-diretor
ex-hospedeiro
ex-prefeito
ex-presidente
pós-graduação
pré-história
pré-vestibular
pró-europeu
recém-casado
recém-nascido
sem-terra

9. Deve-se usar o hífen com os sufixos de origem tupi-guarani: açu, guaçu e mirim.
Exemplos:

amoré-guaçu, anajá-mirim, capim-açu.

10. Deve-se usar o hífen para ligar duas ou mais palavras que ocasionalmente se combinam, formando não propriamente vocábulos, mas encadeamentos vocabulares.

Exemplos: ponte Rio-Niterói, eixo Rio-São Paulo.

11. Não se deve usar o hífen em certas palavras que perderam a noção de composição.

Exemplos:

girassol
madressilva
mandachuva
paraquedas
paraquedista
pontapé

12. Para clareza gráfica, se no final da linha a partição de uma palavra ou combinação de palavras coincidir com o hífen, ele deve ser repetido na linha seguinte.

Exemplos:

Na cidade, conta-se que ele foi viajar.

O diretor recebeu os ex-alunos.


Resumo - Emprego do hífen com prefixos

Regra básica

Sempre se usa o hífen diante de h:

anti-higiênico, super-homem.

Outros casos

1. Prefixo terminado em vogal:

- Sem hífen diante de vogal diferente: autoescola, antiaéreo.
- Sem hífen diante de consoante diferente de r e s: anteprojeto, semicírculo.
- Sem hífen diante de r e s Dobram-se essas letras: antirracismo, antissocial, ultrassom.
- Com hífen diante de mesma vogal:
contra-ataque, micro-ondas.

2. Prefixo terminado em consoante:

- Com hífen diante de mesma consoante: inter-regional, sub-bibliotecário.
- Sem hífen diante de consoante diferente: intermunicipal, supersônico.
- Sem hífen diante de vogal: interestadual, superinteressante.

Observações

1. Com o prefixo sub, usa-se o hífen também diante de palavra iniciada por r sub-região, sub-raça etc. Palavras iniciadas por h perdem essa letra e juntam-se sem hífen: subumano, subumanidade.

2. Com os prefixos circum e pan, usa-se o hífen diante de palavra iniciada por m, n e vogal:
circum-navegação, pan-americano etc.

3 O prefixo co aglutina-se em geral com o segundo elemento, mesmo quando este se inicia por o: coobrigação, coordenar, cooperar, cooperação, cooptar, coocupante etc.

4. Com o prefixo vice, usa-se sempre o hífen: vice-rei, vice-almirante etc.

5. Não se deve usar o hífen em certas palavras que perderam a noção de composição, como girassol, madressilva, mandachuva, pontapé, paraquedas, paraquedista etc.

6. Com os prefixos ex, sem, além, aquém, recém, pós, pré, pró, usa-se sempre o hífen:
ex-aluno, sem-terra, além-mar, aquém-mar, recém-casado, pós-graduação, pré-vestibular, pró-europeu.


Obs.: Uma dica é imprimir este Guia Prático da Nova Ortografia e mantê-lo ao lado do computador. Há muitas dúvidas sobre o uso do hífen, a exemplo da antiga palavra coabitar: a nova ortografia seria "co-habitar" ou permaneceria a mesma grafia? Esse exemplo se enquadraria dentro do critério de "palavras consagradas pelo uso" ou "que perderam a noção de composição", como girassol, pontapé, mandachuva. A nova regra, no entanto, diz que se deve escrever "co-habitar": "Com prefixos, usa-se sempre o hífen diante de palavra iniciada por h, como co-herdeiro" (Cfr. texto acima). Para acabar com esta e outras confusões, a Academia Brasileira de Letras (ABL) irá publicar o novo Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa (VOLP), previsto para fevereiro deste ano. Até lá, acredito que o Guia Prático, acima transcrito, servirá como uma boa norma. Ou então, você poderá tirar dúvidas com o palestrante da foto, aí no alto, que está explicando as mudanças ortográficas aos "imortais" da ABL... (F. Maier)