domingo, 4 de janeiro de 2009

Belíssima e a ética da malandragem

Félix Maier

16/07/2006

Após anos de promoção da "ética da malandragem", agora os autores de novela se surpreendem com a falta de caráter de muitos brasileiros.


Muito interessantes, esses nossos autores de novela. Depois de promoverem por dezenas de anos na telinha global a "ética da malandragem" - no sábio dizer da socióloga Maria Lucia Victor Barbosa -, agora eles se mostram surpreendidos quando uma pesquisa da própria Globo comprova que boa parte dos brasileiros está com a "moral torta".

Em entrevista à revista Veja, edição nº 1961, de 21/7/2006, Silvio de Abreu, autor da badalada novela “Belíssima”, revela-se "chocado com a tolerância do público com personagens canalhas". Depois de enaltecer, ele próprio, anos a fio, tanta bandalha na TV, Silvio de Abreu enfim descobre o óbvio: "Uma parcela das espectadoras já não valoriza tanto a retidão do caráter. Para elas, fazer o que for necessário para se realizar na vida é o certo" (in A moral está torta, pg. 11).

Na tal pesquisa que "chocou" Silvio de Abreu, há colocações que dizem tudo, o fundo do poço em que chegamos: "Quero ser a Júlia porque aí eu pago mensalão para todo mundo e ninguém me passa a perna" (pg. 14). O autor conclui: "Olhe que absurdo: a esperteza desonesta foi vista como um valor. O simples fato de o presidente Lula dizer que não sabia de nada e não viu as mazelas trazidas à tona pelas CPIs e pela imprensa basta - as pessoas fingem que acreditam porque acham mais conveniente que fique tudo como está" (pg. 14).

É verdade que Silvio de Abreu, segundo suas próprias palavras, utilizou-se de uma personagem corrupta, Bia Falcão, para abordar a corrupção do dia-a-dia, especialmente a corrupção escancarada destes tenebrosos tempos lulanos. Porém, ele não pode esquecer que, durante anos, ajudou a promover o enaltecimento de tais personagens, na medida em que criminosos no final do enredo novelístico se saíam muito bem, fugindo do País para gozar sua impunidade em Paris. Silvio de Abreu, junto com outros autores de novelas da TV Globo, tem uma grande parcela de culpa de o brasileiro hoje ter sua "moral torta". Não são, obviamente, os únicos culpados, porém não podem se mostrar "chocados" por algo que ajudaram a construir.

Leia texto completo em http://www.midiasemmascara.org/?p=5364